Morcegos: os injustiçados da noite e o papel que têm na natureza

Equipe ILPS • 6 de novembro de 2026

Eles polinizam flores, espalham sementes e controlam insetos. Conheça os mamíferos mais incompreendidos do Brasil e entenda por que protegê-los é proteger florestas e lavouras

Todo fim de outubro, os morcegos aparecem por toda parte: em fantasias, decorações e filmes de Halloween, quase sempre no papel de vilões. Na mesma semana acontece a Bat Week, uma celebração internacional criada justamente para mostrar o outro lado dessa história e chamar atenção para a conservação desses animais.

 

E há muito a ser mostrado. Longe da imagem sombria que a cultura popular construiu, os morcegos trabalham todas as noites a favor das florestas, das cidades e da produção de alimentos. Entender o que eles fazem é o primeiro passo para deixar de temê-los e começar a protegê-los.


Um grupo muito maior do que se imagina

 

Os morcegos formam a ordem Chiroptera, a segunda mais diversa entre os mamíferos. Segundo a Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros (SBEQ), há mais de 1.400 espécies descritas no mundo e 186 oficialmente registradas no Brasil.

 

Essa diversidade é especialmente alta por aqui. A região Neotropical, que vai do México Central ao sul do Brasil, concentra a maior variedade de morcegos do planeta e pode abrigar até 120 espécies em uma área de 500 km², de acordo com a SBEQ.

 

Dentro desse grupo cabem hábitos alimentares muito diferentes. Há morcegos que comem frutos, outros que se alimentam de néctar e pólen, os que caçam insetos, os que capturam pequenos vertebrados e alguns poucos que se alimentam de sangue. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo estima que cerca de três quartos das espécies sejam insetívoras.


Mitos e verdades

 

"Todo morcego chupa sangue." Mito. Das mais de 1.400 espécies conhecidas, apenas três são hematófagas, e as três vivem nas Américas: Desmodus rotundus, Diaemus youngi e Diphylla ecaudata. Elas se alimentam principalmente do sangue de aves e de mamíferos como bois, cavalos e porcos, como explica reportagem divulgada pela APRAG.

 

"Morcego ataca pessoas." Mito. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, os morcegos não costumam atacar. Como qualquer animal silvestre, eles mordem quando são perturbados ou manipulados de forma indevida.

 

"Morcegos podem transmitir raiva." Verdade, e por isso o cuidado é importante. O Ministério da Saúde informa que os morcegos podem carregar o vírus por longos períodos sem apresentar sintomas. Mas a raiva pode ser transmitida por qualquer mamífero infectado, e não só por morcegos. A orientação oficial é simples: nunca toque em um morcego, especialmente se ele estiver caído no chão ou se comportando de forma estranha. Nesses casos, acione o serviço de controle de zoonoses ou o órgão ambiental da sua cidade.

 

"Morcegos são cegos." Mito. Todos os morcegos enxergam. Muitas espécies, porém, contam também com a ecolocalização: emitem sons e interpretam o eco para se orientar e caçar no escuro.


O trabalho noturno que sustenta florestas e lavouras

 

A má fama esconde uma das funções mais importantes da natureza. Os morcegos atuam como polinizadores, dispersores de sementes e predadores de pragas agrícolas, como destaca a SBEQ.


Polinizadores da noite

 

As espécies que se alimentam de néctar visitam flores que se abrem à noite e, ao passar de uma para outra, transportam o pólen. A Bat Conservation International lembra que os morcegos polinizam ou protegem culturas como banana, goiaba, caju, figo, cacau e agave, entre outras.


Plantadores de florestas

 

Os morcegos frugívoros comem frutos e espalham as sementes enquanto voam, muitas vezes por longas distâncias e em áreas abertas, onde outros animais evitam passar. Por isso são considerados aliados importantes na recuperação de florestas tropicais desmatadas, como as da Mata Atlântica.


Controle natural de insetos

 

Os insetívoros, maioria entre as espécies brasileiras, ajudam a controlar populações de insetos noturnos, incluindo pragas de lavouras e de áreas urbanas. É um serviço prestado de graça, todas as noites, que beneficia diretamente a agricultura.


As ameaças aos morcegos

 

Apesar de tudo o que fazem, os morcegos estão em declínio em quase todos os lugares onde ocorrem, segundo a Bat Week. Entre as principais ameaças estão a perda de habitat, o uso de agrotóxicos, a destruição de abrigos como cavernas e ocos de árvores e as mudanças climáticas.

 

No Brasil, a perseguição motivada pelo medo também pesa. Colônias inteiras ainda são eliminadas por desinformação, quando a maioria das espécies não oferece risco algum e presta serviços valiosos. A lista de espécies da SBEQ inclui morcegos classificados como ameaçados, como o Lonchophylla dekeyseri, um morcego nectarívoro do Cerrado considerado em perigo.

 

Proteger os morcegos é também uma obrigação legal: como todo animal silvestre brasileiro, eles são protegidos por lei e não devem ser perseguidos ou mortos.


Ciência para mudar a forma como olhamos para os morcegos

 

Grande parte do que sabemos sobre os morcegos vem de pesquisadores que passam noites em campo, capturando, identificando e soltando esses animais para entender onde vivem, do que se alimentam e como respondem às mudanças no ambiente. É esse conhecimento que permite substituir o medo por informação e orientar políticas de conservação, como mostramos em O papel da ciência na conservação.

 

O Instituto Luísa Pinho Sartori acredita que conservar a biodiversidade passa por valorizar também os animais menos carismáticos. Os morcegos podem não ser os mais fotogênicos da fauna brasileira, mas poucas espécies trabalham tanto, e de forma tão silenciosa, pelas florestas de que dependemos.


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Foto de capa: Andy Morffew / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

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