Plantas invasoras nos Campos de Altitude do Itatiaia: pesquisa apoiada pelo ILPS busca caminhos para o manejo
Projeto selecionado no Jovens Talentos para a Conservação 2026 investiga como espécies invasoras se reproduzem e se espalham no Parque Nacional do Itatiaia
No alto da Serra da Mantiqueira, onde a Mata Atlântica dá lugar a paisagens abertas, rochosas e varridas pelo vento, existe um dos ecossistemas mais singulares do Brasil: os Campos de Altitude. É ali, no Parque Nacional do Itatiaia, que a bióloga Carolyne Cristina Miranda Miguel vai investigar uma ameaça silenciosa e crescente: as plantas invasoras.
O projeto "Sucesso Reprodutivo e Distribuição Espacial de Espécies de Angiospermas Invasoras: Subsídios para o Manejo e Conservação dos Campos de Altitude" é um dos dois selecionados na 9ª edição do Programa Jovens Talentos para a Conservação, do Instituto Luísa Pinho Sartori (ILPS). A seguir, contamos o que a pesquisa vai estudar, como ela será feita e por que seus resultados podem mudar a forma como protegemos as áreas mais altas do Itatiaia.
Campos de Altitude: um ecossistema raro sob pressão
Criado em 1937, o Parque Nacional do Itatiaia foi o primeiro parque nacional do Brasil. Em suas porções mais elevadas, os Campos de Altitude abrigam uma vegetação adaptada a condições extremas: frio intenso, solos rasos, forte radiação solar e grande variação de temperatura entre o dia e a noite. Muitas das espécies que vivem ali não existem em nenhum outro lugar do planeta.
Ser uma área protegida, porém, não torna esse ambiente imune a ameaças. Trilhas, visitação, histórico de uso do solo e o próprio trânsito de pessoas e materiais criam portas de entrada para espécies vindas de outros lugares. Se você quer entender melhor como funcionam essas áreas, vale ler nosso conteúdo sobre o que são as unidades de conservação e como funcionam no Brasil.
Por que as plantas invasoras são uma ameaça tão séria
A invasão biológica acontece quando uma espécie introduzida fora da sua área de origem consegue se estabelecer, se reproduzir e se espalhar, ocupando o espaço de espécies nativas. Segundo o relatório temático do IPBES sobre espécies exóticas invasoras, publicado em 2023, essas espécies tiveram papel em cerca de 60% das extinções globais registradas e geram custos que ultrapassam US$ 423 bilhões por ano no mundo.
Em ecossistemas de montanha, o problema ganha contornos particulares. As espécies nativas costumam ter distribuição restrita e populações pequenas, o que as torna mais vulneráveis à competição. Somadas às mudanças climáticas, que já afetam as espécies brasileiras, as invasoras podem acelerar a perda de biodiversidade em ambientes que levaram milhares de anos para se formar.
O grande desafio é que, para combater uma planta invasora com eficiência, é preciso conhecê-la a fundo: onde ela está, como se reproduz, quem a poliniza e em que condições suas sementes germinam. No caso dos Campos de Altitude do Itatiaia, essas informações ainda são escassas, e é exatamente essa lacuna que o projeto pretende preencher.
Conheça o projeto e a pesquisadora
Carolyne Cristina Miranda Miguel é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu projeto foi selecionado entre 49 inscritos de todo o Brasil na edição 2026 do Jovens Talentos para a Conservação.
A pesquisa tem quatro objetivos centrais:
- descrever a distribuição espacial das plantas invasoras ao longo de um gradiente de distúrbio;
- caracterizar o sistema reprodutivo dessas espécies;
- quantificar o sucesso reprodutivo das invasoras em diferentes contextos de polinização;
- avaliar seu potencial de recrutamento em comparação com as plantas nativas.
Como a pesquisa será feita
O trabalho combina levantamentos de campo, experimentos de polinização e testes de laboratório. As expedições ao parque serão mensais, com quatro dias de duração cada.
1. Mapeando onde as invasoras estão
Para caracterizar a distribuição das espécies, a pesquisa adota o protocolo de trilhas da MIREN (Mountain Invasion Research Network), uma rede internacional dedicada ao estudo de invasões biológicas em montanhas. O uso de um protocolo padronizado permite que os dados do Itatiaia sejam comparados com os de outras regiões montanhosas do mundo.
A amostragem será feita ao longo de três trilhas, com dez transectos em formato de "T". Cada transecto é composto por três parcelas de 2 x 10 metros. Em cada parcela, as plantas invasoras serão identificadas e terão sua cobertura estimada. Também serão registrados dados ambientais e de distúrbio, como a intensidade de uso da trilha e a presença de espécies nativas. Isso ajuda a responder uma pergunta-chave: as invasoras se concentram onde há mais circulação de pessoas?
2. Entendendo como elas se reproduzem
Além de mapear, a pesquisa vai observar quais animais visitam as flores das invasoras, identificando seus possíveis polinizadores. Em seguida, flores femininas ainda fechadas (em pré-antese) passarão por quatro tratamentos experimentais:
- Condição natural: flores abertas, sem intervenção, que servem como controle.
- Autofertilidade: flores ensacadas com papel, para verificar se a planta consegue produzir sementes sozinha, por autopolinização espontânea ou apomixia.
- Autocompatibilidade: polinização manual com pólen da própria planta, para testar se ela aceita o próprio pólen.
- Suplementação de pólen: polinização manual cruzada, que indica o potencial máximo de produção de sementes.
A comparação entre o primeiro e o quarto tratamento revela se há limitação polínica, ou seja, se a planta produz menos sementes do que poderia por falta de polinizadores. Na prática, esse desenho experimental mostra o quanto cada espécie invasora depende de animais para se reproduzir e, portanto, onde estão seus pontos fracos.
3. Medindo a capacidade de germinação
O último passo avalia o potencial de recrutamento, isto é, a capacidade das invasoras de gerar novos indivíduos. Sementes coletadas em campo serão submetidas a diferentes tratamentos térmicos em uma câmara de germinação (BOD), simulando as condições de microclima do parque.
Serão calculados o percentual final de germinação (G%) e a velocidade de germinação, incluindo o T50, o tempo necessário para atingir 50% da germinação máxima. Esses indicadores mostram se as invasoras conseguem superar os filtros ambientais da alta montanha e introduzir um grande número de novas plantas no ecossistema.
O avanço que o projeto traz para a conservação
Hoje, o combate às plantas invasoras nos Campos de Altitude do Itatiaia é limitado pela falta de informação sobre os mecanismos que garantem sua persistência e expansão. Ao integrar dados de distribuição, reprodução e germinação, o projeto vai revelar as vulnerabilidades ecológicas dessas espécies.
Esse conhecimento é a base para um plano de manejo estratégico. Sabendo em que momento as invasoras se reproduzem e quais vetores favorecem sua dispersão, as equipes de conservação poderão agir no momento certo: erradicar as plantas antes que elas produzam e dispersem sementes viáveis. É um exemplo claro de como a ciência é peça-chave na conservação e na proteção de espécies ameaçadas no Brasil.
Jovens Talentos: ciência aplicada que sai do papel
Desde 2017, o Programa Jovens Talentos para a Conservação incentiva mestrandos de pós-graduação em Ecologia a executar projetos com resultados efetivos para a conservação da natureza. Cada projeto selecionado recebe patrocínio de R$ 25 mil.
O programa preenche uma lacuna importante no financiamento à pesquisa no Brasil: a dos pequenos projetos com impacto local direto. Inicialmente restrito ao Rio de Janeiro, ele passou a receber inscrições das regiões Sul e Sudeste em 2023 e, desde 2024, de todo o país. Projetos como o manejo participativo de quelônios no Acre, da edição 2024, mostram como esse apoio transforma pesquisa em ação concreta no território.
Ao lado do projeto de Carolyne, a edição 2026 também apoia uma pesquisa sobre o coral-mole invasor Chromonephthea braziliensis na Baía da Ilha Grande. Juntos, os dois trabalhos reforçam o compromisso do ILPS com o enfrentamento das invasões biológicas, em terra e no mar.
Apoie a próxima geração de conservacionistas
Cada projeto apoiado pelo ILPS é possível graças a associados e doadores que acreditam no poder da ciência para proteger o planeta. Quando você contribui, ajuda jovens pesquisadores como Carolyne a transformar perguntas científicas em soluções reais para a natureza brasileira.
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Foto de capa: Brigiti Bandini / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)













