Uma viagem pela Mata Atlântica: entre a exuberância, a ciência e os desafios da conservação no Vale do Ribeira

Cristina Pinho • 25 de maio de 2026

Há viagens que nos apresentam paisagens. Outras nos apresentam perguntas. Minha recente travessia pela Mata Atlântica, percorrendo o mosaico do Vale do Ribeira até o Paraná, pertence à segunda categoria.


Ao longo do percurso, visitamos algumas das áreas mais importantes para a conservação da biodiversidade brasileira: oLegado das Águas, oParque Estadual Carlos Botelho e o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira - PETAR. Estes espaços integram um grande mosaico de áreas protegidas, formando um dos mais relevantes corredores ecológicos do país. Parte dessas áreas foi reconhecida como patrimônio natural pela UNESCO e constitui um dos principais refúgios de biodiversidade do país.



O mosaico de áreas protegidas do Vale do Ribeira


O conceito de mosaico de áreas protegidas é particularmente interessante porque rompe a ideia de que áreas protegidas funcionam como “ilhas”. Em vez disso, propõe uma gestão integrada de diferentes unidades de conservação, considerando aspectos ecológicos, sociais e econômicos.


Essa abordagem busca garantir a conectividade entre habitats, permitindo fluxo genético entre espécies e aumentando a resiliência dos ecossistemas.



Legado das Águas: conservação, pesquisa e sustentabilidade


Nossa primeira parada foi o Legado das Águas, uma experiência particularmente interessante por mostrar uma combinação entre conservação, pesquisa científica e modelos de sustentabilidade econômica.

Considerada a maior reserva privada de Mata Atlântica do país, possui aproximadamente 31 mil hectares protegidos. O que chama atenção no Legado não é apenas a dimensão da área preservada, mas o esforço para construir um modelo de conservação que se sustente no longo prazo.


O local abriga um Centro de Biodiversidade dedicado à produção de espécies nativas, restauração ecológica e desenvolvimento de pesquisas científicas. Entre as iniciativas realizadas estão estudos sobre fauna, monitoramento de espécies e programas de recuperação ambiental.



A biodiversidade que sustenta a floresta


Na Mata Atlântica, a vegetação se apresenta em múltiplas camadas. Grandes árvores dividem espaço com bromélias, samambaias, cipós e inúmeras espécies de orquídeas.


A palmeira juçara merece atenção especial. Historicamente explorada pela extração ilegal do palmito, ela exerce papel fundamental na alimentação de aves e mamíferos, funcionando como uma espécie-chave do ecossistema. Sua perda pode desencadear impactos em cadeia sobre a fauna local.


Entre os animais que habitam a região encontram-se espécies ameaçadas como a onça-pintada, a jaguatirica, a jacutinga e o muriqui-do-sul, maior primata das Américas. O muriqui é considerado um símbolo da Mata Atlântica e sua presença costuma indicar florestas bem conservadas.





Banner verde sobre conservação: “Com seu apoio, jovens conservacionistas…” e botão “Contribua com o IPS”





Carlos Botelho e PETAR: floresta, cavernas e história natural


No Parque Estadual Carlos Botelho, um dos parques mais importantes do corredor ecológico da Serra do Mar, a percepção é de uma floresta praticamente intacta.


O parque possui alguns dos remanescentes mais preservados de floresta ombrófila densa do país. Em muitos momentos, o som predominante deixa de ser humano e passa a ser das aves, dos insetos e da água correndo pelas encostas.


Já no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira - PETAR, a experiência ganha outra dimensão. Reconhecido por seu patrimônio espeleológico, o parque abriga centenas de cavernas, rios subterrâneos e formações geológicas que contam uma história construída ao longo de milhões de anos.



Conservação também é gestão


Mas talvez o aspecto mais interessante dessa viagem tenha sido perceber que a conservação contemporânea não depende apenas da proteção física dos espaços. Ela exige gestão.

Historicamente, modelos tradicionais de proteção ambiental foram construídos a partir da ideia de isolamento das áreas naturais. Hoje sabemos que isso é insuficiente.


A gestão precisa integrar pesquisa, monitoramento, educação ambiental, geração de renda local e participação das comunidades.



Ecoturismo, ciência e geração de conhecimento


Há avanços importantes ocorrendo nessa direção. O ecoturismo responsável, por exemplo, tornou-se uma ferramenta relevante ao transformar visitantes em aliados da conservação e ao criar alternativas econômicas compatíveis com a preservação.


Iniciativas de restauração ecológica e programas de pesquisa também ajudam a produzir conhecimento essencial para tomada de decisão.


Os desafios, entretanto, permanecem enormes.



Os desafios para proteger a Mata Atlântica


A fragmentação dos habitats continua sendo uma ameaça importante para a Mata Atlântica. Pressões decorrentes de expansão urbana, atividades econômicas, caça ilegal, espécies invasoras e mudanças climáticas aumentam a vulnerabilidade dos ecossistemas.


Existe também um desafio de financiamento. Manter unidades de conservação exige recursos contínuos para infraestrutura, equipes técnicas, fiscalização e monitoramento científico.



Proteger uma floresta não significa apenas delimitar seus limites em um mapa.




Conservar é um processo vivo


Talvez o maior aprendizado dessa viagem seja compreender que conservar não significa congelar paisagens no tempo. Conservação é um processo vivo, que envolve pessoas, conhecimento, escolhas e prioridades.


Ao caminhar por trilhas cobertas por árvores centenárias, observar bromélias suspensas nos galhos ou ouvir o movimento invisível dos animais entre a floresta, fica difícil não pensar sobre nossa responsabilidade diante desse patrimônio natural.


A Mata Atlântica já perdeu grande parte de sua cobertura original, mas aquilo que permanece continua sendo extraordinário. E justamente por isso carrega um enorme valor para o futuro.


Mais do que visitar uma floresta, essa viagem foi uma oportunidade de observar algo maior: a construção diária de uma rede de pessoas, pesquisadores, gestores, comunidades e instituições que trabalham para garantir que biodiversidade, conhecimento e vida continuem existindo para as próximas gerações.




Instituto Luísa Pinho Sartori - Transformamos memória em futuro, apoiando jovens talentos e projetos que preservam a vida e a natureza.


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O debate em torno do Projeto de Lei do Licenciamento Ambiental tem ocupado espaço central nas discussões sobre políticas públicas no Brasil. A proposta de revisão das regras, defendida por diversos setores produtivos há anos, ganhou novo impulso com a edição do decreto presidencial que regulamenta pontos sensíveis do texto. O decreto, publicado após intensa interlocução com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, incorporou sugestões da pasta e representou um ponto de equilíbrio importante: buscou-se preservar a necessária modernização do processo de licenciamento, mas com a retirada de flexibilidades que poderiam ampliar riscos ambientais. Desde o início, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima expressou preocupação com dispositivos do PL que, na visão da equipe técnica, poderiam fragilizar os mecanismos de prevenção e controle. Entre os pontos mais sensíveis estavam as hipóteses de dispensa automática de licenciamento para determinadas atividades, a simplificação excessiva dos estudos de impacto ambiental e os prazos considerados inadequados para análise pelos órgãos licenciadores. Esses temas foram objeto de intenso diálogo interministerial e resultaram em mudanças relevantes no decreto final. Uma das alterações mais importantes diz respeito às hipóteses de licenciamento por adesão e compromisso. A redação original do PL previa a aplicação desse modelo simplificado a um conjunto relativamente amplo de atividades, o que, na avaliação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, poderia abrir brechas para que empreendimentos com potencial significativo de impacto fossem submetidos a uma análise insuficiente. O decreto introduziu uma regra mais clara de enquadramento, restringindo a aplicação da adesão e compromisso aos casos em que haja, previamente, uma comprovação formal de baixo impacto ambiental. Além disso, ficou estabelecido que a implementação desse modelo deverá ser precedida da elaboração de critérios detalhados, com consulta aos órgãos ambientais estaduais. Outro ponto sensível envolvia a dispensa total de licenciamento para atividades consideradas tradicionais ou de menor porte. Embora o objetivo de reduzir custos e burocracia para pequenos empreendedores seja legítimo, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima alertou que a ausência de qualquer instrumento de controle dificultaria a identificação de impactos cumulativos, especialmente em regiões ambientalmente frágeis. A versão final do decreto eliminou a previsão de dispensa automática e substituiu esse mecanismo por um procedimento simplificado, mas ainda submetido à análise prévia das autoridades ambientais em cada caso. Com isso, manteve-se a possibilidade de agilizar processos, mas preservando um nível mínimo de verificação técnica. Outro ajuste relevante teve relação com os prazos. O texto original estabelecia prazos rígidos para a manifestação dos órgãos ambientais, com aprovação tácita caso o prazo expirasse sem uma decisão formal. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima argumentou que essa regra poderia ser contraproducente, na medida em que situações complexas demandam estudos detalhados e articulação com outros órgãos públicos. O decreto manteve a diretriz de assegurar celeridade, mas eliminou o mecanismo de aprovação tácita. Em seu lugar, foram introduzidas diretrizes para melhoria da gestão processual, incluindo metas de desempenho e digitalização obrigatória dos procedimentos, o que pode aumentar a eficiência de forma mais consistente. Também merece destaque a alteração na parte relativa aos estudos ambientais. O PL original autorizava a possibilidade de utilização de estudos simplificados em um número significativo de casos, com eventual dispensa dos EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental). Após diálogo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o decreto passou a exigir que a adoção de estudos simplificados esteja condicionada à existência de diretrizes previamente definidas por resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente, garantindo assim a participação de especialistas e da sociedade civil na definição desses parâmetros. No que diz respeito às competências de outros órgãos, o decreto também introduziu um ajuste importante. O texto original podia ser interpretado como uma limitação da competência dos órgãos de patrimônio cultural e de povos indígenas na fase de licenciamento. A nova versão reforça a obrigatoriedade de consulta e manifestação dessas instituições nos casos em que o empreendimento impacte áreas de valor histórico, cultural ou terras de povos originários. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, essa medida foi fundamental para assegurar a conformidade do novo marco com a legislação federal e com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. A articulação entre os entes federativos, outro tema sensível, também foi contemplada. Enquanto o PL previa a possibilidade de os estados adotarem regramentos específicos, havia receio de que isso levasse a padrões muito diferentes entre os territórios, podendo gerar distorções competitivas ou mesmo uma “corrida regulatória”. O decreto manteve a autonomia dos estados, mas estebeleceu que qualquer regra específica deverá respeitar parâmetros mínimos de proteção ambiental definidos em âmbito federal. Dessa forma, buscou-se equilibrar a flexibilidade regional com a necessidade de uniformidade nacional. Por fim, deve-se registrar que o decreto avançou ainda em aspectos operacionais. Foram incluídas diretrizes para reforçar a capacitação dos técnicos responsáveis pelo licenciamento e para ampliar o uso de sistemas informatizados, com objetivo de reduzir a dispersão de informações e permitir maior transparência e previsibilidade. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima ressaltou que essas medidas eram fundamentais para garantir que a agilidade pretendida pelo PL pudesse ser alcançada sem comprometer as salvaguardas ambientais. Conclusão As mudanças incorporadas ao decreto presidencial refletem um esforço claro de conciliar diferentes expectativas. Ao atender às principais recomendações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o texto final eliminou flexibilidades que poderiam comprometer a integridade do processo de licenciamento, especialmente em temas como dispensa automática, aprovação tácita e utilização indiscriminada de estudos simplificados. Ao mesmo tempo, foram preservados instrumentos capazes de conferir maior agilidade e eficiência, como o licenciamento por adesão nos casos de baixo impacto, a simplificação procedimental e o uso de tecnologia. Trata-se, portanto, de um avanço importante no sentido de modernizar o licenciamento ambiental no Brasil, mantendo o equilíbrio entre desenvolvimento e proteção ambiental – princípio essencial para qualquer política pública contemporânea.
Um cavalo branco pasta na grama em uma floresta escura com árvores altas.
Por Yasmin Ferreira 4 de agosto de 2025
As florestas são muito mais do que meras coleções de árvores; são ecossistemas dinâmicos e complexos que desempenham um papel insubstituível na manutenção da vida e do equilíbrio ambiental em nosso planeta. De florestas tropicais úmidas a densas florestas boreais, passando por florestas temperadas e manguezais costeiros, cada tipo de floresta contribui de maneira única para a saúde global. Compreender sua importância multifacetada é crucial para a construção de um futuro verdadeiramente sustentável. Reguladores Climáticos Globais Um dos serviços ecossistêmicos mais vitais prestados pelas florestas é a regulação climática. Através da fotossíntese, as árvores absorvem grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases de efeito estufa, e liberam oxigênio. Esse processo as torna sumidouros de carbono essenciais, mitigando o aquecimento global. Por exemplo, a Floresta Amazônica, a maior floresta tropical do mundo, armazena bilhões de toneladas de carbono e influencia os padrões climáticos de todo o continente sul-americano, inclusive a formação de chuvas em regiões distantes. Da mesma forma, as vastas florestas boreais (taiga) que se estendem pela América do Norte, Europa e Ásia, embora em climas mais frios, também representam um gigantesco reservatório de carbono, especialmente em seus solos ricos em matéria orgânica. Guardiãs da Água As florestas desempenham um papel central no ciclo hidrológico, influenciando a disponibilidade e a qualidade da água. Elas atuam como esponjas naturais, absorvendo a água da chuva e liberando-a gradualmente para rios e aquíferos, o que ajuda a prevenir inundações e a manter o fluxo de água durante períodos de seca. Suas raízes estabilizam o solo, prevenindo a erosão e o assoreamento de corpos d'água. Um exemplo claro é a Floresta da Bacia do Congo, que, assim como a Amazônia, contribui para a formação de chuvas e a manutenção de vastos sistemas fluviais que abastecem milhões de pessoas e ecossistemas dependentes da água. Em regiões temperadas, como as florestas de sequoias na Califórnia, a densa vegetação ajuda a reter a umidade do solo e a regular o fluxo de riachos, essenciais para a vida selvagem e o abastecimento humano. Santuários de Biodiversidade As florestas são os maiores reservatórios de biodiversidade terrestre, abrigando uma vasta gama de espécies de flora e fauna. Embora cubram aproximadamente 30% da superfície terrestre, elas concentram mais de 80% das espécies de anfíbios, 75% das aves e 68% dos mamíferos conhecidos. A diversidade biológica é fundamental para a resiliência dos ecossistemas e para a descoberta de novos recursos. A Floresta Atlântica, no Brasil, é um hotspot de biodiversidade global, com altíssimos níveis de endemismo, abrigando espécies únicas como o mico-leão-dourado. As florestas tropicais da Indonésia e Malásia são lares para orangotangos e tigres, além de uma miríade de plantas com potencial medicinal ainda inexplorado. Mesmo as florestas de eucalipto na Austrália, com sua biodiversidade mais especializada, sustentam ecossistemas complexos e espécies icônicas como os coalas.
A humpback whale is swimming in the ocean.
Por Equipe ILPS 16 de julho de 2025
Todos os anos, entre os meses de julho e novembro, um espetáculo silencioso e majestoso toma conta do litoral brasileiro — a migração das baleias, em especial das jubartes, que escolhem nossas águas para descansar, acasalar e, muitas vezes, dar à luz. Aqui, na região de Arraial do Cabo (RJ), esse fenômeno natural pode ser vivido de perto, com sorte e respeito, através do avistamento desses animais incríveis em seu habitat. O Instituto Luísa Pinho Sartori convida todos a participarem de uma saída especial de observação de baleias no dia 26 de julho, com o objetivo de promover a educação ambiental e o encantamento pela biodiversidade marinha. Quais baleias passam por aqui? As espécies mais comumente avistadas na costa fluminense são a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) e a baleia-de-bryde (Balaenoptera brydei). A jubarte é a estrela da temporada de inverno: adulta, pode chegar a 16 metros e pesar mais de 40 toneladas. É conhecida por seus saltos acrobáticos e pelos longos cantos emitidos pelos machos, que podem durar até 20 minutos. Já a baleia-de-bryde, observada com frequência em Arraial do Cabo em anos anteriores, é uma espécie de hábitos mais costeiros. Ela pode ser vista durante todo o ano, especialmente nas estações mais quentes, alimentando-se de cardumes de sardinhas e outros peixes pelágicos. Seu corpo esguio e as três cristas na cabeça ajudam a distingui-la de outras baleias. Por que elas estão aqui? Esses gigantes do mar percorrem milhares de quilômetros todos os anos. As jubartes, por exemplo, vêm das águas geladas da Antártida, onde se alimentam durante o verão. Quando o inverno se aproxima, elas sobem para águas tropicais e subtropicais, como as do litoral brasileiro, para se reproduzir e parir em águas mais quentes e protegidas. O litoral do estado do Rio de Janeiro, especialmente a região de Arraial do Cabo, se tornou rota importante dessa migração por oferecer águas relativamente calmas e ricas em vida, além de um ambiente propício ao descanso dos animais. Apesar de incomum, em junho de 2024 um raro e emocionante acontecimento marcou a costa do Rio de Janeiro: o nascimento de um filhote de baleia-jubarte nas águas próximas à Praia da Barra. O registro, feito por banhistas e biólogos, chamou a atenção, já que as jubartes costumam. O nascimento do filhote (apelidado carinhosamente de Bossa Nova) foi celebrado como um sinal positivo da recuperação da espécie e também um alerta sobre a importância da preservação dos oceanos e da vida marinha.
Um grupo de jovens convervacionistas está trabalhando em um jardim.
Por Equipe ILPS 27 de março de 2025
Descubra como o Instituto Luísa Pinho Sartori apoia jovens conservacionistas e promove a conservação ambiental, bioeconomia e soluções baseadas na natureza.