O preço de não preparar as cidades para as mudanças climáticas

Fábio Sartori • 23 de outubro de 2026

Perdas bilionárias, seguros mais caros e milhões de empregos afetados mostram que a omissão diante da crise climática já custa caro

Durante muito tempo, as mudanças climáticas foram apresentadas como um problema do futuro. Falava-se sobre o aumento gradual da temperatura do planeta, a elevação do nível do mar e os riscos que as próximas gerações enfrentariam. Esse futuro, entretanto, já chegou. Ele se manifesta nas enchentes que destroem bairros inteiros, nas secas que comprometem o abastecimento de água e a produção de alimentos, nas ondas de calor que ameaçam a saúde e reduzem a capacidade de trabalho, nos incêndios que avançam sobre as cidades e no degelo que torna regiões montanhosas cada vez mais instáveis.


O desastre ocorrido em agosto de 2026 na fronteira entre o Nepal e a China tornou essa realidade ainda mais dramática. Uma enorme massa de gelo e rocha se desprendeu na região do Himalaia, provocando enxurradas que deixaram centenas de mortos e destruíram vilarejos inteiros. Ainda não é correto afirmar que as mudanças climáticas foram a causa exclusiva do colapso: fenômenos dessa natureza resultam da combinação de fatores geológicos, históricos e climáticos. Pesquisadores ouvidos após a tragédia, porém, indicam que o aquecimento global agravou as condições de instabilidade: o recuo das geleiras, o degelo do solo permanentemente congelado e a elevação da linha de congelamento reduzem a sustentação natural das encostas.


Essa cautela na atribuição das causas é importante. A ciência não precisa exagerar para nos alertar. Mesmo quando não se pode relacionar uma tragédia isolada exclusivamente ao aquecimento do planeta, já sabemos que temperaturas mais elevadas alteram a frequência, a intensidade ou as consequências de diversos eventos extremos. O risco climático não cria necessariamente todos os desastres, mas pode tornar ambientes vulneráveis ainda mais perigosos.


O tamanho das perdas e aquilo que os números não alcançam

Os indicadores disponíveis já são impressionantes. Segundo o Swiss Re Institute, as catástrofes naturais provocaram perdas econômicas globais de aproximadamente US$ 318 bilhões em 2024. Esse total inclui diferentes tipos de eventos naturais e não pode ser atribuído integralmente às mudanças climáticas. Ainda assim, ajuda a compreender a dimensão econômica da exposição crescente de cidades, empresas e comunidades.


Há também uma diferença importante entre perda econômica e perda segurada. Segundo a mesma Swiss Re, 57% das perdas de 2024 não tinham cobertura de seguro e recaíram diretamente sobre famílias, empresas e governos. Uma casa destruída, uma estrada interrompida ou uma fábrica paralisada aparecem nas estatísticas econômicas. Mais difícil é calcular os efeitos que se prolongam no tempo: a interrupção dos estudos, a perda de renda, o fechamento de pequenos negócios, o deslocamento de famílias, o adoecimento físico e mental e a redução da produtividade.


Um estudo global divulgado pelo Banco Mundial em 2026 acrescentou outra dimensão a essa conta. Desastres e calor extremo estão associados, anualmente, à perda equivalente a cerca de 90 milhões de empregos em tempo integral. Isso não significa necessariamente 90 milhões de pessoas desempregadas: o número reúne horas que deixaram de ser trabalhadas, redução da produtividade, perda de renda e passagem para formas mais precárias de ocupação. Quase 80 milhões desses empregos equivalentes estão relacionados ao calor extremo, que atinge especialmente atividades como agricultura e construção civil.


Portanto, quando contabilizamos apenas pontes, estradas, imóveis e lavouras destruídas, estamos observando somente a parte mais visível do prejuízo. A perda de vidas é irreparável. E os impactos sobre a saúde, a educação, o trabalho e as oportunidades futuras diminuem a capacidade de geração de riqueza de uma comunidade durante muitos anos.


Quando o risco climático chega ao preço do seguro

O mercado de seguros talvez seja um dos sinais mais concretos de que o risco climático já está sendo incorporado à economia. As seguradoras trabalham calculando probabilidades. Quando incêndios, enchentes, furacões ou outros eventos deixam de ser excepcionais e passam a ocorrer com maior frequência ou intensidade, os prêmios aumentam, as coberturas são restringidas e algumas regiões podem se tornar difíceis de segurar.


Foi o que ocorreu na Califórnia. Depois dos incêndios devastadores de Los Angeles, a State Farm, maior seguradora residencial privada do estado, solicitou aumentos emergenciais de até 22% para proprietários de residências, 15% para proprietários de unidades em condomínio e 38% para imóveis destinados à locação. A empresa informou ter recebido mais de 8.700 pedidos de indenização e desembolsado mais de US$ 1 bilhão. Outras seguradoras já haviam limitado a emissão de novas apólices ou reduzido sua presença em áreas consideradas de alto risco.


Surge, assim, um problema que ultrapassa o próprio seguro. Um imóvel pode permanecer de pé e, mesmo assim, perder valor porque se tornou caro ou quase impossível de segurar. Sem seguro, seu financiamento fica mais difícil. Sem financiamento, diminui o número de possíveis compradores. O risco ambiental transforma-se em risco financeiro, imobiliário e social.


Essa realidade também aprofunda desigualdades. Famílias com maior renda podem reforçar suas casas, instalar materiais resistentes ao fogo, melhorar a drenagem, pagar prêmios mais elevados ou mudar de região. As famílias mais vulneráveis tendem a permanecer nas áreas de maior risco e, muitas vezes, não possuem seguro nem recursos para reconstruir. Para elas, uma inundação ou um incêndio não representa apenas a perda de um patrimônio: pode significar o retorno à pobreza.


O seguro, portanto, funciona como um sinal antecipado. Antes que determinado território se torne formalmente inabitável, ele pode se tornar economicamente inviável para parte de seus moradores. Esse é um alerta que governos, empresas, instituições financeiras e cidadãos precisam compreender.


Quanto custa preparar nossas cidades?

Se os prejuízos já são tão elevados, quanto seria necessário investir para aumentar a resiliência das cidades?


Não existe uma resposta única. A conta depende dos riscos de cada território e do que se inclui como adaptação: drenagem, saneamento, contenção de encostas, proteção costeira, moradias seguras, arborização, recuperação de rios, sistemas de alerta, hospitais preparados para ondas de calor, redes elétricas mais resistentes e segurança hídrica, entre outras medidas.


O Relatório sobre a Lacuna de Adaptação de 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 bilhões por ano em 2035 para adaptação climática, considerando custos modelados. Quando o cálculo parte das necessidades apresentadas pelos próprios países em seus planos climáticos, o valor chega a US$ 365 bilhões anuais. Em contraste, o financiamento público internacional destinado à adaptação foi de apenas US$ 26 bilhões em 2023. As necessidades são, portanto, de 12 a 14 vezes maiores do que o fluxo atual.


É revelador observar a ordem de grandeza desses números. Em apenas um ano, as catástrofes naturais provocaram perdas econômicas globais estimadas em US$ 318 bilhões. Ao mesmo tempo, calcula-se que seriam necessários entre US$ 310 bilhões e US$ 365 bilhões por ano para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptar.


Não se trata de uma comparação perfeita. O primeiro número é global, inclui diferentes catástrofes naturais e representa perdas ocorridas; o segundo se refere às necessidades futuras de adaptação dos países em desenvolvimento. Mas a aproximação mostra algo essencial: a humanidade já perde, todos os anos, valores comparáveis ao investimento anual necessário para reduzir parte de sua vulnerabilidade.


Investir em adaptação não elimina os eventos extremos. Uma cidade resiliente também pode sofrer. A diferença é que ela possui melhores condições de antecipar, absorver e superar o impacto, preservando vidas, serviços essenciais e capacidade econômica.


O Brasil já começou, mas planejar não é suficiente

O Brasil tem iniciativas importantes. São Paulo possui um Plano de Ação Climática, o PlanClima. Recife e Salvador também elaboraram estratégias de mitigação e adaptação. O estado do Rio de Janeiro desenvolve, em parceria com o ONU-Habitat, o programa Rio Inclusivo e Sustentável, voltado à resiliência climática e socioambiental. No âmbito federal, foi criado o Programa Cidades Verdes Resilientes.


Em 2024, a Lei nº 14.904 estabeleceu diretrizes para a elaboração de planos de adaptação à mudança do clima e para sua integração às políticas públicas e ao planejamento setorial. É um avanço relevante porque reconhece que a adaptação não pertence apenas aos órgãos ambientais. Ela deve fazer parte das decisões sobre habitação, mobilidade, saúde, energia, agricultura, defesa civil, infraestrutura e uso do solo.


Entretanto, existe uma grande distância entre possuir um plano e estar preparado. Um documento não contém uma enchente. Um diagnóstico não impede a ocupação de uma encosta. Uma meta sem orçamento não amplia a drenagem, não recupera uma floresta e não fortalece a defesa civil. Esse desafio é ainda maior para os municípios menores, como já discutimos ao tratar da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas em pequenas cidades.


A resiliência precisa ser incorporada aos investimentos e à gestão cotidiana. Isso significa mapear riscos, impedir novas ocupações em áreas perigosas, oferecer alternativas dignas de moradia, manter rios e sistemas de drenagem, preservar áreas permeáveis, ampliar a arborização, proteger mananciais, criar refúgios climáticos e preparar escolas, hospitais e redes de transporte para eventos extremos. Significa também garantir continuidade entre governos, porque a adaptação climática exige décadas, não apenas um mandato.


As soluções baseadas na natureza têm papel fundamental nesse processo. Parques inundáveis, recuperação de manguezais e matas ciliares, renaturalização de rios, ampliação de áreas verdes e restauração de ecossistemas ajudam a absorver água, reduzir o calor, proteger a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida. As cidades-esponja são um bom exemplo: muitas vezes, essas soluções oferecem benefícios simultâneos que uma obra convencional isolada não consegue produzir.


O El Niño como alerta, não como justificativa passageira

O fortalecimento do El Niño em 2026 aumenta a urgência dessa discussão. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, indicava probabilidade superior a 83%, em seu boletim de 8 de outubro de 2026, de um El Niño forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.


No Brasil, os efeitos variam regionalmente e dependem também das condições do oceano Atlântico e de outros fatores atmosféricos. Em geral, o fenômeno eleva o risco de estiagem no Norte e no Nordeste, chuvas intensas no Sul e ondas de calor em diferentes partes do país. A Amazônia merece atenção particular: alguns rios chegam a este ciclo já fragilizados por uma sequência de secas e sem tempo suficiente para recompor suas reservas, o que também aumenta o risco de queimadas na estação seca.


O agronegócio está atento porque alterações no regime de chuvas afetam o calendário de plantio, a produtividade, o manejo do solo, a disponibilidade de água e os preços dos alimentos. Algumas cidades também reforçam sistemas de alerta, planos de contingência e estruturas de resposta.


Essa preparação é indispensável, mas não pode terminar quando o El Niño enfraquecer. O fenômeno é cíclico; a mudança climática é uma transformação de longo prazo. Se as medidas forem tratadas apenas como resposta a uma temporada excepcional, voltaremos a improvisar diante do próximo evento.


O El Niño pode ter a força necessária para despertar comunidades, empresas e governos. Mas o aprendizado que ele produz precisa permanecer. Planejamento urbano, adaptação da agricultura, proteção dos ecossistemas, infraestrutura resiliente e sistemas de alerta devem ser políticas contínuas.


A catástrofe começa antes do desastre

A catástrofe não começa quando o rio transborda, a encosta desaba ou o incêndio alcança as casas. Ela começa muito antes, quando o risco é conhecido, mas não é incorporado às decisões sobre moradia, infraestrutura, orçamento e ocupação do território.


Também não podemos imaginar que a reconstrução seja sempre a solução. Reconstruir custa mais do que prevenir e, muitas vezes, repõe a mesma vulnerabilidade no mesmo lugar. Quando uma cidade apenas recupera aquilo que foi destruído, sem rever seus padrões de ocupação e suas estruturas de proteção, ela começa a preparar a próxima tragédia.


Precisamos discutir quem financia a adaptação, quais regiões devem ser priorizadas e como proteger as populações mais vulneráveis. É necessário mobilizar recursos públicos, capital privado, bancos de desenvolvimento e instrumentos de seguro. Mas também precisamos de governança: responsabilidades definidas, transparência, participação das comunidades e acompanhamento das metas.


Reduzir as emissões de gases de efeito estufa continua sendo indispensável. A mitigação procura evitar que o problema se torne ainda maior. A adaptação reconhece que parte dos impactos já está entre nós. Não podemos escolher uma ou outra. Precisamos das duas.


Preparar nossas cidades não é admitir derrota diante das mudanças climáticas. É proteger vidas, patrimônio, trabalho, educação e oportunidades. É preservar a capacidade de uma comunidade continuar existindo e se desenvolvendo mesmo sob condições mais adversas.


O custo da adaptação é elevado. O custo da omissão, porém, já se mostra maior, e não pode ser medido apenas em dólares.


Fontes consultadas



Foto de capa: Ricardo André Frantz / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

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