Conflito entre humanos e fauna silvestre: é possível conviver?

Equipe ILPS • 2 de outubro de 2026

Pessoas e animais silvestres nunca dividiram tanto espaço. Cidades crescem sobre áreas de mata, pastagens avançam sobre o habitat de grandes predadores e estradas cortam florestas inteiras. O resultado são encontros cada vez mais frequentes, e muitas vezes trágicos para os dois lados.


A ciência chama isso de conflito entre humanos e fauna. Ele aparece quando um animal ataca uma criação, invade uma plantação ou atravessa uma rodovia. Mas a pergunta que pesquisadores do mundo todo vêm fazendo é outra: como transformar o conflito em convivência?


Nas estradas: 15 animais por segundo


O encontro mais letal acontece no asfalto. Segundo o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), da Universidade Federal de Lavras, cerca de 475 milhões de animais silvestres morrem atropelados por ano no Brasil, o equivalente a 15 por segundo.


A maioria são pequenos vertebrados, como sapos, aves e cobras, que somam cerca de 430 milhões. Outros 43 milhões são animais de médio porte, como gambás e macacos. E cerca de 2 milhões são de grande porte, como onças, lobos-guarás e capivaras. Para espécies ameaçadas, cada perda pesa no futuro de toda a população.


No campo: onças e pecuária


No Pantanal, o conflito mais conhecido envolve a onça-pintada e o gado. Quando um bezerro é atacado, o prejuízo cai sobre o produtor, e a retaliação contra o felino ainda é uma ameaça real. A espécie é classificada como vulnerável pelo ICMBio.


Mas a conta pode ser outra. Um estudo de 2017 citado pelo Jornal da Unesp mostrou que o turismo de observação de onças gerou mais de US$ 6,8 milhões na região, enquanto as perdas da pecuária com predação somaram cerca de US$ 121 mil.


Viva, a onça vale mais para a economia local.


E há soluções práticas. Na Fazenda Ipiranga, cercas elétricas zeraram a predação de gado por onças desde junho de 2023. O Instituto Homem Pantaneiro testou repelentes luminosos com LED movidos a energia solar: numa área que havia perdido 17 animais nas duas semanas anteriores, foram dois meses e meio sem ataques, segundo a Agência Brasil. Manter os bezerros perto da sede, uma prática tradicional pantaneira, também ajuda.


Nas cidades: quando o carinho também atrapalha


O conflito nem sempre vem do medo. Às vezes, nasce da vontade de ajudar. Um estudo da Unicamp no Parque Estadual de Águas da Prata (SP) registrou, em média, 7,7 vezes por hora em que macacos-prego recebiam comida de visitantes ou reviravam o lixo. Salgadinhos e refrigerantes estavam no cardápio.


Os efeitos vão além da saúde, que inclui triglicérides altos e imunidade baixa. Atraídos para áreas movimentadas, os macacos ficam mais expostos a atropelamentos, choques elétricos e ataques de cães, e perdem o receio de pessoas, segundo o Instituto de Pesquisas Ambientais de SP.


As capivaras são outro exemplo. Elas se adaptaram bem a parques e margens de rios urbanos e viraram símbolo nas redes. A capivara não transmite febre maculosa pelo contato: ela é hospedeira do carrapato que pode carregar a bactéria. Por isso, a convivência passa por informação, como usar roupas claras e calças compridas em áreas de risco e evitar mato alto, explica o Canal Rural, e não por eliminar os animais.


Caminhos que a ciência aponta


Não existe solução única, mas os exemplos mostram que a convivência é possível quando se combinam pesquisa, tecnologia e envolvimento das pessoas:


  • Passagens de fauna: na Estação Ecológica do Taim (RS), 19 túneis sob a BR-471 permitem que os animais cruzem a rodovia com segurança, segundo o ICMBio
  • Controle de velocidade: no Parque Nacional do Iguaçu, veículos de visitantes passaram a ser monitorados por GPS para conter o excesso de velocidade
  • Ciência cidadã: aplicativos como o Urubu, do CBEE, permitem que qualquer pessoa registre um atropelamento e ajude a mapear os trechos mais críticos
  • Manejo nas propriedades: cercas elétricas, repelentes luminosos e bezerros perto da sede reduzem a predação de gado
  • Valor econômico da fauna viva: o turismo de observação transforma o predador em fonte de renda para a comunidade
  • Educação ambiental: campanhas e sinalização em parques evitam que visitantes alimentem animais silvestres


O ponto em comum é que nenhuma dessas medidas funciona sem as pessoas. Conservar a fauna também é cuidar de quem vive ao lado dela.


A dimensão humana da conservação


Poucas pessoas conhecem esse desafio tão de perto quanto a Dra. Krithi Karanth. Diretora-executiva do Centre for Wildlife Studies, na Índia, ela dedica a carreira à dimensão humana da conservação, num país com um dos maiores índices de conflito entre pessoas e animais do mundo.


Um dos seus projetos mais conhecidos é o Wild Seve. O programa ajuda famílias que perderam plantações ou criações para a fauna a pedir a indenização prevista pelo governo e já atende 2.914 vilarejos em três estados indianos. A lógica é simples: quem tem o prejuízo reconhecido tem menos motivo para retaliar o animal. Pelo trabalho, ela recebeu o Rolex Award for Enterprise (2019) e o McNulty Prize (2025), segundo o The Better India.


Venha ouvir a Dra. Krithi Karanth. No dia 06 de outubro, às 17h, ela faz a Palestra Luisa Pinho Sartori na Semana Temática de Biologia da USP. Na noite anterior, dia 05, ela participa do nosso jantar beneficente no restaurante A Figueira Rubaiyat, em São Paulo. Saiba mais sobre o evento.

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