O calor já chegou: por que ainda tratamos a crise climática como um evento esolado?

Cristina Pinho • 1 de outubro de 2026

O calor já chegou. O que ainda estamos esperando?

Neste verão europeu, as notícias se repetiam com uma regularidade desconfortável.

Ondas de calor que quebram recordes históricos. Incêndios florestais que avançam por regiões inteiras. Cidades que param. Sistemas de saúde sob pressão. Pessoas perdendo suas casas, seus meios de vida, suas referências.

Nada disso é exatamente novo. O que muda é a frequência, a intensidade e a extensão dos impactos.

Essa percepção ficou ainda mais clara para mim ao ouvir um episódio recente do podcast Outrage and Optimism, apresentado por Christiana Figueres e sua equipe.

Ao longo da conversa, uma pergunta atravessa tudo de forma silenciosa, mas persistente: por que continuamos tratando cada desastre climático como um evento isolado, quando eles já compõem uma realidade?

A emergência climática também é brasileira

No Brasil, essa realidade também já não é abstrata. Secas prolongadas, enchentes mais frequentes, queimadas em larga escala, deslizamentos e ondas de calor sucessivas já fazem parte do cotidiano de muitas regiões.

Os impactos econômicos e sociais estão documentados, sentidos e acumulados. Mas ainda assim, a resposta coletiva parece não acompanhar a escala do problema.

Diante disso, surge uma dúvida incômoda: estamos subestimando o risco?

O descompasso entre o que pensamos e o que fazemos

A literatura sobre comportamento humano ajuda a iluminar parte dessa questão. Existe um descompasso recorrente entre aquilo que as pessoas dizem acreditar e aquilo que efetivamente fazem.

Esse fenômeno, conhecido como attitude-behavior gap, aparece com frequência em temas ambientais.

Há reconhecimento da gravidade da crise climática. Há apoio a medidas de proteção ambiental. Há preocupação declarada com o futuro. Mas mudanças concretas de comportamento, pressão política ou engajamento mais estruturado ainda são limitados (Yale Program on Climate Change Communication).

É mais simples confiar que soluções tecnológicas ou institucionais darão conta do problema. E, muitas vezes, é mais fácil ajustar a forma como pensamos o problema do que alterar a forma como vivemos.

Diferentes percepções, o mesmo risco

Mas há ainda outro elemento que ajuda a explicar essa distância entre consciência e ação.

A forma como percebemos o risco não é homogênea.

Pesquisas do Yale Program on Climate Change Communication mostram que diferentes grupos sociais reagem de maneiras distintas à crise climática.

  • Há aqueles profundamente alarmados
  • Há os que reconhecem o problema, mas o percebem como distante
  • E há também os que o negam ou o consideram irrelevante

Essa diversidade de percepções torna o desafio da comunicação ainda mais complexo.

Da informação à conexão

Diante desse cenário, talvez o desafio não seja apenas de informação, mas de tradução ou, mais precisamente, de conexão.

O que frequentemente transforma percepção em ação são experiências concretas, narrativas significativas, trazendo o problema para atravessar a vida cotidiana.

E isso muda tudo. Porque deixa de ser uma projeção futura e passa a ser uma experiência presente.

Proteger a natureza é proteger o presente

Quando falamos de proteger florestas, restaurar ecossistemas ou fortalecer iniciativas de conservação, não estamos apenas tratando de espécies ou paisagens.

Estamos falando de sistemas que regulam o clima.

De estruturas que protegem comunidades.

De bases que sustentam nossa capacidade de adaptação a um cenário que já está em transformação.

O debate não se limita mais a evitar um futuro distante. Ele diz respeito, sobretudo, a como lidamos com um presente que já mudou.

A pergunta que ainda precisamos responder

E talvez o ponto mais sensível dessa discussão seja justamente este: a distância entre o reconhecimento intelectual da crise e a incorporação prática dessa realidade no cotidiano.

O futuro não será definido apenas pela intensidade dos eventos extremos que enfrentaremos.

Será definido também pela nossa capacidade de reorganizar prioridades, instituições e escolhas individuais e coletivas.

E talvez seja aqui que a pergunta mais importante se imponha: o que ainda precisa acontecer para que a emergência climática deixe de ser percebida como uma sequência de eventos e passe a ser tratada como uma condição estrutural do nosso tempo?

Banner verde com texto sobre jovens conservacionistas e botão “Contribua com o ILPs”
Golden lion tamarin perched on a mossy branch in a lush green forest
Por Equipe ILPS • 1 de outubro de 2026
Pela primeira vez, micos-leões-da-cara-preta foram vacinados contra a febre amarela no Paraná. Entenda a iniciativa que protege uma das espécies mais raras do mundo.
Por Equipe ILPS • 14 de setembro de 2026
Enquanto cidades se mobilizam contra o calor extremo com a iniciativa Beat the Heat, o oceano brasileiro já sente o impacto.
Smoke rising from a brush fire in a dry, open landscape under a clear sky
Por Equipe ILPS • 12 de setembro de 2026
2026 já é um ano recorde de incêndios florestais no mundo, e o Brasil entra na fase mais crítica da estação seca com um El Niño em intensificação. Entenda os dados!
Árvores jovens crescendo em uma encosta ensolarada sob um céu claro, com uma floresta ao fundo.
Por Cristina Pinho • 11 de setembro de 2026
Uma reflexão sobre a restauração do Instituto Terra em Aimorés, MG, e por que proteger a natureza é hoje parte central da resposta às mudanças climáticas.
Audience watches a presentation in a restaurant, with a speaker beside a large screen showing a seaside scene.
Por Equipe ILPS • 5 de agosto de 2026
ILPS expande atuação acadêmica e homenageia a Dra. Krithi Karanth com um jantar beneficente em São Paulo, no dia 6 de outubro. Inscreva-se e participe dessa causa.
Por Equipe ILPS • 5 de agosto de 2026
Em outubro de 2025, recebemos com tristeza a notícia da morte da extraordinária Jane Goodall, uma das maiores referências mundiais na defesa da natureza e dos animais.
Turtle with a domed brown shell and striped head resting on a log outdoors
Por Fábio Sartori • 4 de agosto de 2026
Conheça um dos resultados dos estudos e trabalhos premiado pelo ILPS
Por Fábio Sartori • 3 de agosto de 2026
De 20 a 22 de outubro, fui conhecer de perto o projeto “Manejo participativo de quelônios”, da bióloga Kathellen Magalhães, mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal do Acre. O projeto foi contemplado no Programa Jovens Talentos para a Conservação em 2024, concorrendo com 64 candidatos de todo o Brasil, e é totalmente patrocinado pela Karoon Energy.  Mas, valeu a pena estar lá naquele momento mágico da vida!
Por Equipe ILPS • 31 de julho de 2026
No ILPS, acreditamos que a formação de um jovem profissional vai muito além do conhecimento técnico adquirido em sala de aula.
Leroy Ignacio segurando um pequeno pássaro colorido no dedo em uma área arborizada, usando bon
Por Equipe ILPS • 29 de julho de 2026
Há mais de uma década, o Instituto Luísa Pinho Sartori mantém um compromisso especial com a BioSemana UFRJ . Desde 2010 pelas mãos da família de Luísa, e a partir de 2015 pelo próprio Instituto, patrocinamos a Palestra de Abertura do evento — um espaço que já recebeu nomes como Dr. Stuart Pimm, Dr. Carl Jones e Dra. Asha de Vos, referências mundiais na conservação ambiental. Neste ano, para celebrar essa trajetória e aprofundar o encontro entre nossa comunidade e um convidado tão especial, preparamos algo novo: o Jantar BioSemana UFRJ , uma noite pensada para reunir, em um ambiente intimista, quem acredita que proteger a biodiversidade também é proteger conhecimentos e histórias de vida. Um convidado que representa uma virada de olhar O nome escolhido pela Comissão Organizadora da BioSemana deste ano carrega um significado especial: Leroy Ignacio , indígena do povo macuxi, da região de Rupununi, na Guiana. Sem formação acadêmica em Biologia, Leroy foi peça-chave na conservação do tarim — o ameaçado pintassilgo-da-Venezuela —, unindo saber tradicional e ciência em um dos exemplos mais admirados de conservação comunitária das Américas. Seu trabalho já rendeu reconhecimento internacional, incluindo o Whitley Award , conhecido como o "Oscar da Conservação", e hoje ele preside a South Rupununi Conservation Society . A vinda de Leroy ao Brasil, com todas as despesas custeadas pelo ILPS, é também um símbolo do que defendemos: a valorização do conhecimento tradicional como parte essencial — e urgente — do debate sobre conservação ambiental. Uma noite para ouvir, trocar e se inspirar O Jantar BioSemana UFRJ acontece no dia 31 de agosto, às 19h, no Rubaiyat Rio (R. Jardim Botânico, 971), em um formato pensado para ir além da plateia: uma conversa próxima, em clima acolhedor, com quem viveu na prática o encontro entre tradição indígena e ciência da conservação. Temos a alegria de contar com o Rubaiyat Rio não apenas como sede, mas como parceiro genuíno dessa causa — um espaço que abraça a proposta do evento e se soma a nós na divulgação e na construção dessa noite tão especial. Uma parceria que reforça algo em que acreditamos: iniciativas de conservação crescem quando encontram aliados dispostos a emprestar seu espaço, sua rede e seu cuidado. Participe dessa noite Reservar um lugar no Jantar BioSemana UFRJ é garantir uma experiência rara: estar perto de uma história de conservação que atravessou fronteiras, línguas e saberes — e que agora chega até nós. Inscreva-se e reserve seu lugar: 👉 https://forms.gle/ZAMWiv7Uv4EZbfWJA As vagas são limitadas. Esperamos você lá. Confira alguns vídeos da edição passada