Coral-mole invasor na Ilha Grande: pesquisa apoiada pelo ILPS une ciência, manejo e comunidade caiçara

Equipe ILPS • 23 de outubro de 2026

Projeto selecionado no Jovens Talentos para a Conservação 2026 mapeia, mede impactos e testa a remoção de um coral invasor na Baía da Ilha Grande

Águas claras, costões rochosos, ilhas cobertas de Mata Atlântica e uma diversidade marinha impressionante: a Baía da Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, é considerada um hotspot de biodiversidade. Mas, sob a superfície, um invasor vem ganhando espaço. Trata-se do coral-mole Chromonephthea braziliensis, uma espécie exótica que cresce sobre esponjas, algas e outros corais, alterando o fundo marinho de que dependem inúmeras espécies nativas.


Para enfrentar esse problema, a bióloga Fabíola Gomes da Silva vai desenvolver o projeto "Monitoramentos, impactos e manejo do coral mole invasor Chromonephthea braziliensis em um hotspot de biodiversidade", um dos dois selecionados na 9ª edição do Programa Jovens Talentos para a Conservação, do Instituto Luísa Pinho Sartori (ILPS).


O que é bioinvasão marinha e por que ela preocupa

A bioinvasão marinha acontece quando uma espécie é levada, geralmente pela ação humana, para fora da sua área de origem e passa a se reproduzir e se espalhar no novo ambiente. No mar, um dos principais vetores é a bioincrustação: organismos que viajam presos ao casco de navios, plataformas de petróleo e outras estruturas.


É o caso do C. braziliensis. Registrado pela primeira vez no Brasil em Arraial do Cabo (RJ), o coral-mole já foi encontrado em 14 pontos ao longo de cerca de 1.200 km de costa, no Rio de Janeiro e na Bahia, segundo um estudo publicado em 2026 na revista Coral Reefs. Os pesquisadores apontam que a espécie provavelmente chegou por meio da incrustação em plataformas e navios-sonda, espalhando-se depois por dispersão natural, embarcações e, possivelmente, mergulhadores. Na região da Baía da Ilha Grande, as primeiras populações foram relatadas a partir de 2022.


O mesmo estudo descreve colônias crescendo sobre esponjas, algas e outros octocorais, além de sinais de necrose em organismos nativos em contato com o invasor, incluindo o coral endêmico Mussismilia hispida. Sem controle contínuo, os autores projetam uma invasão generalizada em uma década.


A ameaça se soma à de outro invasor conhecido do litoral brasileiro, o coral-sol, e aumenta a pressão sobre ecossistemas que já abrigam muitas espécies ameaçadas de extinção no Brasil.


Conheça o projeto e a pesquisadora

Fabíola Gomes da Silva é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Seu projeto foi selecionado entre 49 inscritos de todo o Brasil na edição 2026 do Jovens Talentos para a Conservação.


A proposta combina quatro frentes:


  • atualizar o mapa de distribuição do coral invasor na Baía da Ilha Grande;
  • medir, pela primeira vez na região, seus impactos sobre as comunidades marinhas nativas;
  • testar a eficácia da remoção manual como estratégia de controle;
  • capacitar mergulhadores e envolver a população caiçara na proteção do ecossistema.


Como a pesquisa será feita

1. Mapeando onde o invasor está

O primeiro passo é saber onde o coral-mole está e em que quantidade. Para isso, a pesquisa vai usar a metodologia DAFOR, adaptada do protocolo do Projeto Coral-Sol, que estima a abundância relativa do invasor em cada local de ocorrência.


Mergulhos em apneia serão realizados em pontos já monitorados pelo Projeto Coral-Sol e em áreas vizinhas, com o objetivo de identificar, registrar e mapear novas ocorrências. Como ainda há poucas informações sobre a distribuição atual da espécie na baía, essa etapa vai atualizar um conhecimento essencial para qualquer ação de manejo.


2. Medindo os impactos sobre as espécies nativas

Com base nesse levantamento, serão escolhidos três locais: um com alta abundância do invasor, um com abundância média e um local controle, sem o coral. Em cada um, serão instalados dois transectos de 50 metros, em duas profundidades. Ao longo deles, serão amostrados 20 quadrados aleatórios de 50 x 50 cm para medir a cobertura das espécies e dos grupos funcionais que vivem no fundo marinho.


A grande inovação está na forma de avaliar esses quadrados: um método inédito em duas camadas. A primeira camada mede a cobertura por meio de fotos dos quadrados. A segunda quantifica, de forma visual e fotográfica, os organismos que ficam sombreados por baixo do coral invasor. Assim, será possível entender não apenas onde o coral está, mas o que ele esconde: os efeitos de sombreamento, a competição por espaço e as possíveis alterações químicas que ele provoca nas comunidades nativas.


3. Testando o manejo ativo

Em seguida, será realizado o manejo ativo do coral invasor, com licença do SISBIO (nº 88982-3). A remoção manual será feita com faca e samburá adaptado, retirando os organismos pela base, onde se fixam ao substrato.


Para saber se a estratégia funciona, parte dos quadrados será fixa e monitorada um, seis e doze meses após a remoção, com registros fotográficos e visuais. Esses dados vão mostrar se o coral volta a crescer e em que ritmo, informação fundamental para planejar ações de controle em maior escala.


4. Levando a ciência para a comunidade

A conservação marinha não se faz apenas debaixo d'água. O projeto também prevê a capacitação de mergulhadores para o manejo e ações de ciência cidadã com a população caiçara da Ilha Grande, por meio de eventos, palestras, cartilhas e guias de identificação de octocorais invasores. Quem vive e trabalha no mar é peça-chave para a detecção precoce de novas ocorrências.


O avanço que o projeto traz para a conservação

O projeto vai gerar novas informações sobre a distribuição do C. braziliensis e dados inéditos sobre seus impactos ecológicos e seu manejo na Baía da Ilha Grande. Os resultados ajudarão a compreender como a espécie afeta as comunidades nativas, especialmente na competição por espaço e nas alterações causadas pelo sombreamento e por seus efeitos químicos.


Essas informações poderão apoiar estratégias de monitoramento e manejo aplicadas por órgãos ambientais como o ICMBio e o INEA, contribuindo para a prevenção e a detecção precoce da espécie. A avaliação da remoção manual também fornecerá dados importantes para futuras ações de controle de invasoras marinhas.


Ao integrar pesquisa científica, manejo e sensibilização ambiental, o projeto contribui diretamente para a conservação da biodiversidade costeira e para o fortalecimento de políticas públicas de proteção dos ecossistemas marinhos. É mais um exemplo de como a ciência está ajudando a salvar espécies no Brasil e de por que cuidar dos oceanos também é conservar.


Invasões biológicas em terra e no mar

O projeto de Fabíola dialoga diretamente com o outro trabalho apoiado na edição 2026 do programa: a pesquisa de Carolyne Miguel, da UFRJ, sobre plantas invasoras nos Campos de Altitude do Parque Nacional do Itatiaia. Juntos, os dois estudos mostram que as invasões biológicas são um desafio que atravessa ecossistemas, do alto das montanhas ao fundo do mar.


Desde 2017, o Jovens Talentos para a Conservação apoia mestrandos que desenvolvem projetos com impacto direto na conservação da natureza, com patrocínio de R$ 25 mil por projeto. Iniciativas como o manejo participativo de quelônios no Acre mostram como esse apoio transforma pesquisa em ação concreta.


Apoie a próxima geração de conservacionistas

Cada projeto apoiado pelo ILPS é possível graças a associados e doadores que acreditam no poder da ciência para proteger o planeta. Com a sua contribuição, jovens pesquisadoras como Fabíola transformam perguntas científicas em soluções reais para a natureza brasileira.


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Foto de capa: Fabio Takashi / Wikimedia Commons (CC BY 2.0 BR)


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