Fauna urbana: os animais silvestres que vivem nas cidades brasileiras
Saruês, micos, corujas e centenas de outras espécies dividem as cidades com a gente. Entender essa convivência é parte de planejar cidades mais verdes e resilientes
Em 31 de outubro, a ONU celebrou o Dia Mundial das Cidades. A data lembra um fato que molda o nosso tempo: cerca de 55% da população mundial vive hoje em áreas urbanas, e a proporção deve chegar a quase 70% até 2050. No Brasil, a urbanização é ainda mais intensa. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 87% dos brasileiros vivem em áreas urbanas.
Costumamos pensar nas cidades como o oposto da natureza. Mas basta prestar atenção para perceber que não estamos sozinhos nelas. Nos parques, nas praças, nos quintais, nos rios e até nos telhados vive uma fauna silvestre surpreendentemente rica, que se adaptou à vida urbana e cumpre funções importantes para o equilíbrio das cidades.
Quem são os animais silvestres urbanos
São Paulo, a maior cidade do país, é um bom exemplo do tamanho dessa diversidade. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o Inventário da Fauna Silvestre do Município registra mais de 1,4 mil espécies na capital paulista. Cerca de 860 são vertebrados e outras 600, aproximadamente, são invertebrados. Mais de 220 dessas espécies estão ameaçadas de extinção, o equivalente a 15% dos registros.
Aves e insetos são os grupos mais numerosos, mas a lista inclui também mamíferos, anfíbios, répteis, peixes, aranhas e moluscos, como mostram os dados do inventário divulgados pelo Conselho Regional de Biologia da 1ª Região (CRBio-01).
Alguns desses vizinhos são velhos conhecidos de quem vive em cidades brasileiras:
- Gambás ou saruês: marsupiais noturnos que se adaptaram muito bem ao ambiente urbano. Comem frutos, invertebrados e pequenos vertebrados, além de restos de comida.
- Micos: pequenos primatas que circulam por parques e áreas arborizadas de diversas cidades.
- Corujas: algumas espécies vivem em gramados, terrenos e campos de várzea urbanos, onde caçam insetos e pequenos roedores.
- Capivaras: os maiores roedores do mundo ocupam margens de rios e lagos urbanos em várias regiões do país.
- Aves: sabiás, bem-te-vis, beija-flores, gaviões e muitas outras espécies encontram alimento e abrigo nas árvores das cidades.
O papel ecológico da fauna nas cidades
Esses animais não estão nas cidades por acaso, e também não estão de passagem. Muitos prestam serviços ecológicos que beneficiam diretamente as pessoas.
Aves e morcegos que comem frutos espalham sementes e ajudam a renovar a vegetação urbana. Beija-flores, abelhas nativas e outros insetos polinizam árvores e jardins. Corujas, gaviões e morcegos insetívoros controlam populações de roedores e insetos. Os gambás, por terem uma dieta muito variada, também ajudam a consumir invertebrados e restos orgânicos.
A presença de fauna silvestre é, além disso, um indicador da qualidade ambiental da cidade. Onde há diversidade de espécies, há vegetação, água e conexão entre áreas verdes.
Áreas verdes e corredores ecológicos urbanos
A fauna urbana depende de espaços que lhe ofereçam alimento e abrigo. Em São Paulo, a Prefeitura destaca o papel dos remanescentes de Mata Atlântica, parques, praças, bosques urbanos, corredores verdes e corpos d'água. Segundo o CRBio-01, a cidade tem ainda cerca de 650 mil árvores plantadas nas ruas.
Quando essas áreas estão conectadas, por exemplo por meio de arborização viária ou de matas ciliares ao longo de rios, os animais conseguem circular, encontrar parceiros e buscar alimento. Quando estão isoladas, as populações ficam mais vulneráveis.
Essa lógica conversa com uma agenda maior: tornar as cidades mais preparadas para a crise climática. Soluções baseadas na natureza, como as cidades-esponja, ampliam áreas verdes e permeáveis que reduzem enchentes e ilhas de calor e, ao mesmo tempo, criam habitat para a fauna. Como discutimos em O preço de não preparar as cidades para as mudanças climáticas, investir nessa adaptação custa menos do que arcar com as consequências da omissão.
Como conviver bem com a fauna urbana
Conviver com animais silvestres na cidade exige alguns cuidados simples, tanto para a nossa segurança quanto para a deles:
- Nem todo animal precisa ser resgatado. A Prefeitura de São Paulo orienta que, ao encontrar um animal silvestre em quintais ou jardins, o melhor é manter distância e permitir que ele siga seu caminho, sem tentar capturá-lo.
- Não alimente. Oferecer comida altera o comportamento dos animais, faz com que percam o medo de pessoas e pode prejudicar sua saúde.
- Não toque. O CRBio-01 recomenda não tocar nem interagir com animais silvestres.
- Cuide dos animais domésticos. Segundo o CRBio-01, os gatos domésticos estão entre os principais predadores da fauna silvestre urbana. Manter gatos dentro de casa protege aves, pequenos mamíferos e répteis, e também os próprios gatos.
- Acione os órgãos certos. Se um animal estiver ferido, preso ou em situação de risco, procure a secretaria de meio ambiente da sua cidade ou a Polícia Militar Ambiental.
Para entender melhor os desafios e as soluções dessa convivência, vale ler também o nosso artigo Conflito entre humanos e fauna silvestre: é possível conviver?.
Cidades também são lugar de conservação
Olhar para a fauna urbana muda a forma como pensamos a conservação. Ela não acontece só em parques nacionais e áreas remotas, mas também na praça do bairro, no rio que corta a cidade e na árvore em frente de casa. Cidades mais verdes são melhores para a biodiversidade e para quem vive nelas.
O Instituto Luísa Pinho Sartori acredita que a ciência é a base para essa transformação: conhecer as espécies, entender como elas usam o espaço e orientar decisões que permitam a convivência entre pessoas e natureza.
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Foto de capa: Alexandre Toda Faitarone / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)













