Ondas de calor extremo: o que o "Beat the Heat" tem a ver com a vida selvagem
Enquanto cidades ao redor do mundo se organizam contra o calor extremo, o oceano já sente o impacto: recifes branqueiam, espécies migram, ecossistemas inteiros mudam de lugar. O calor extremo não é só um problema urbano, é também uma crise silenciosa para a vida selvagem, e ela já está em curso no litoral brasileiro.
O que é o Beat the Heat: da COP30 às cidades brasileiras
Em 2 de junho de 2026, o PNUMA (ONU Meio Ambiente) lançou em Nairóbi a iniciativa 50@50, reunindo mais de 50 cidades no mundo, entre elas Teresina, Campinas e Fortaleza. A mobilização contribui diretamente para o "Beat the Heat, Mutirão Contra o Calor Extremo", lançado na COP30, em Belém, em novembro de 2025, pela presidência da conferência em parceria com o PNUMA e a Cool Coalition.
Hoje a iniciativa já reúne 258 cidades no mundo, sendo 105 delas no Brasil. Ainda assim, 66% das cidades brasileiras avaliadas não iniciaram ou estão apenas começando a estruturar planos de ação contra o calor, segundo a Agência Brasil. É um sinal de que a urgência do tema ainda não se traduziu, na mesma velocidade, em resposta institucional.
O impacto humano do calor extremo no Brasil
Os números por trás dessa mobilização são expressivos. Segundo o PNUMA, o calor extremo já provoca cerca de 500 mil mortes por ano no mundo. No Brasil, entre 2000 e 2020, ondas de calor estiveram associadas a cerca de 50 mil mortes em regiões metropolitanas, mais do que enxurradas e deslizamentos somados no mesmo período, de acordo com a Agência Brasil.
Esses dados ajudam a explicar por que o calor extremo passou a ocupar espaço central nas discussões climáticas globais. Mas o mesmo aquecimento que ameaça vidas humanas nas cidades também está alterando, de forma menos visível, o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
Quando o calor chega ao oceano: o que é uma onda de calor marinha
Assim como o ar pode registrar temperaturas anormalmente altas por dias seguidos, o oceano também pode passar por períodos prolongados de calor acima do normal para a região e a estação, fenômeno conhecido como onda de calor marinha. A diferença é que, enquanto uma onda de calor atmosférica dura dias, uma onda de calor marinha pode persistir por semanas ou meses, afetando toda uma cadeia de organismos que depende de uma faixa estreita de temperatura para sobreviver.
Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais sensíveis a essa variação. Eles não são apenas formações bonitas: funcionam como berçário e abrigo para uma enorme diversidade de peixes e invertebrados marinhos, sustentando parte relevante da biodiversidade costeira brasileira.
O caso dos corais brasileiros: branqueamento recorde em Maragogi e Abrolhos
Os dados mais recentes mostram a extensão do problema. Em Maragogi, no litoral de Alagoas, um estudo do Projeto Coral Vivo, publicado em fevereiro de 2026, apontou até 96% de branqueamento e 88% de mortalidade de corais no episódio extremo de 2024, segundo o Mundo Ecologia. No Banco dos Abrolhos, um dos complexos recifais mais importantes do Atlântico Sul, a perda de cobertura de corais já chega a 50% nos últimos 20 anos.
Em escala mais ampla, 84% dos recifes brasileiros foram afetados por estresse térmico entre 2023 e 2025, de acordo com o Simaclim. E a projeção para o futuro é ainda mais preocupante: segundo o IPCC, mesmo em um cenário limitado a 1,5°C de aquecimento global, entre 70% e 90% dos corais do mundo podem desaparecer.
Outras espécies afetadas: migração de peixes e efeitos sobre predadores marinhos
O branqueamento de corais é apenas a face mais visível de uma mudança mais ampla. Quando a temperatura do mar se altera, espécies de peixes tendem a migrar em busca de águas mais adequadas, o que reorganiza cadeias alimentares inteiras. Predadores marinhos, incluindo baleias e outros grandes cetáceos, podem sentir o efeito indireto dessa mudança, à medida que a disponibilidade de presas se altera ao longo da costa.
É um cenário que reforça por que observar o litoral brasileiro de perto, com método e continuidade, se tornou uma tarefa científica tão relevante.
O que o ILPS observa de perto: o Caminhos da Conservação
É justamente nesse ponto que a atuação do Instituto Luísa Pinho Sartori se conecta a essa discussão. Criado em 2024, em Arraial do Cabo (RJ), o programa Caminhos da Conservação é orientado pelo Dr. Rodrigo Tardin, Diretor Científico do ILPS e especialista em cetáceos, e recebe famílias e crianças a partir de 8 anos para observar de perto a vida marinha da região.
Agosto e setembro marcam o pico da temporada de baleias em Arraial do Cabo, período em que o Caminhos da Conservação conecta ciência, observação e educação ambiental em um só programa, ajudando a formar um olhar mais atento sobre um litoral que, como mostram os dados de branqueamento e as ondas de calor marinhas, já está em transformação.
Adaptação, ciência e chamada à ação
Os números de mortalidade humana associada ao calor extremo, o branqueamento recorde em Maragogi e Abrolhos e as projeções do IPCC apontam para o mesmo alerta: o aquecimento não escolhe entre cidades e oceano, ele afeta os dois. A boa notícia é que a resposta também já está em curso, do mutirão global Beat the Heat às iniciativas de monitoramento científico no litoral brasileiro.
Conheça também as soluções para os efeitos das mudanças climáticas e o papel das Unidades de Conservação na proteção de áreas marinhas mais expostas a esse cenário.
Se você quer ver de perto essa ciência em ação, na temporada em que as baleias voltam a Arraial do Cabo, garanta sua vaga no Caminhos da Conservação.










