Queimadas e a estação seca 2026: por que este ano pode ser diferente

Equipe ILPS • 12 de setembro de 2026

2026 já é considerado um ano recorde de incêndios florestais em escala global. Até o dia 6 de maio, a área queimada no planeta somava 163 milhões de hectares, segundo dados do Global Wildfire Information System (GWIS) reunidos pelo Portal Tela. O número é 50% acima da média histórica e 20% superior ao recorde anterior da série. Para o pesquisador Theodore Keeping, do Imperial College London, o cenário é prenúncio de um período "particularmente severo".

E o Brasil está entrando agora na fase mais crítica da sua própria estação seca, justamente quando um El Niño em intensificação eleva o risco de fogo em boa parte do território. Entender o que está por trás desse quadro é o primeiro passo para agir.

O que está acontecendo: o painel El Niño 2026-2027 e o efeito "chicote climático"

De acordo com o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Inmet, há 100% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027, com chance elevada de atingir intensidade "muito forte". O mesmo painel indica que o risco de fogo já aumenta em grande parte do interior do Brasil entre agosto e outubro, exatamente o período mais crítico da estação seca.

Esse comportamento está associado ao que parte da comunidade científica chama de "chicote climático": a alternância cada vez mais abrupta entre períodos de chuvas intensas e secas severas. O fenômeno amplia a variabilidade climática e dificulta o planejamento de resposta a desastres, tanto para o poder público quanto para quem trabalha na linha de frente da conservação.

O quadro no Brasil: estação seca mais longa e déficit hídrico

Estudos do INPE, divulgados pela Agência FAPESP, apontam que a estação seca na Amazônia vem se prolongando de 4 para até 6 meses, acompanhada de um aumento do déficit hídrico superior a 150 mm. Esse prolongamento altera diretamente a vulnerabilidade da vegetação ao fogo, mesmo em biomas historicamente mais úmidos, e amplia a janela de risco para estados que já enfrentam pressão de queimadas todos os anos.

O Cerrado brasileiro é um dos biomas mais expostos a esse cenário, ao lado da Amazônia e do Pantanal, três regiões que concentram grande parte da biodiversidade nacional e que dependem, em graus diferentes, do regime de chuvas para se manter em equilíbrio.

Impacto na biodiversidade: o que o fogo faz com a fauna e os biomas

O fogo descontrolado não distingue vegetação nativa de área já degradada, e seus efeitos sobre a fauna silvestre costumam ser imediatos e severos. Animais de pequeno porte, répteis, anfíbios e espécies com baixa capacidade de deslocamento são especialmente vulneráveis, assim como ninhos, filhotes e indivíduos em época de reprodução.

É importante lembrar que existe uma diferença entre queimada de manejo, controlada e planejada segundo critérios técnicos, e incêndio florestal descontrolado, que se propaga sem limites definidos e destrói indiscriminadamente vegetação, solo e vida animal. O desmatamento funciona como fator agravante nesse quadro: áreas desmatadas acumulam material combustível seco e ficam mais expostas ao vento e ao sol, o que facilita a propagação do fogo para fragmentos florestais vizinhos.

Preservar a cobertura vegetal nativa é, portanto, também uma estratégia de prevenção. As florestas funcionam como parte da infraestrutura natural que sustenta o Brasil, regulando o regime de chuvas e reduzindo a severidade da estação seca em escala regional.

O precedente do Pantanal 2024: o que a temporada de queimadas recorde ensina

Como já mostramos no artigo Pantanal em chamas: o que acontece com o bioma mais alagado do mundo, o Pantanal registrou em 2024 as maiores queimadas de sua história recente, em um bioma conhecido justamente pelas cheias, não pelo fogo em escala recorde. O episódio mostrou como a combinação de seca prolongada, baixa umidade e altas temperaturas pode transformar até os ecossistemas mais alagados do país em ambientes altamente inflamáveis.

Esse precedente é um alerta direto para 2026: com o El Niño em intensificação e a estação seca já se anunciando mais longa, as condições que levaram ao recorde de 2024 no Pantanal podem se repetir, e não apenas nesse bioma. Ele reforça por que o monitoramento e a proteção de Unidades de Conservação são estratégicos: são justamente essas áreas que concentram parte relevante da biodiversidade mais exposta ao risco de incêndio.

O que está sendo monitorado: Programa Queimadas e Boletim Infoqueima do INPE

O Programa Queimadas do INPE acompanha diariamente focos de calor e área queimada em todo o território nacional, com dados públicos usados por gestores, pesquisadores e organizações de conservação. O Boletim Infoqueima de junho de 2026 já apontava um mês crítico para o bioma monitorado, com expectativa de aumento das detecções nos meses seguintes, acompanhando o avanço da estação seca e a intensificação do El Niño.

Esse tipo de monitoramento é o que permite antecipar picos de risco, direcionar recursos de combate e prevenção, e embasar cientificamente a resposta a um cenário que, como mostram os dados do GWIS, do Inmet e do próprio INPE, tende a ser mais severo do que em anos anteriores.

Prevenção, ciência e chamada à ação

Os dados de 2026 não são motivo para catastrofismo, mas para atenção redobrada. O recorde global de área queimada, o painel El Niño 2026-2027, o prolongamento da estação seca amazônica e o precedente ainda recente do Pantanal em 2024 apontam na mesma direção: um ano em que prevenção e ciência precisam estar à frente da resposta ao fogo, não atrás dela.

Instituições como nós do Instituto Luísa Pinho Sartori atuam justamente nessa frente, apoiando ações de conservação e conectando ciência, monitoramento e proteção da biodiversidade brasileira. Conheça também as soluções para os efeitos das mudanças climáticas que já estão em curso no país.

Apoiar a conservação hoje é reduzir o impacto dos incêndios de amanhã. Faça parte dessa proteção.

Árvores jovens crescendo em uma encosta ensolarada sob um céu claro, com uma floresta ao fundo.
Por Cristina Pinho 11 de setembro de 2026
Uma reflexão sobre a restauração do Instituto Terra em Aimorés, MG, e por que proteger a natureza é hoje parte central da resposta às mudanças climáticas.
Audience watches a presentation in a restaurant, with a speaker beside a large screen showing a seaside scene.
Por Equipe ILPS 5 de agosto de 2026
ILPS expande atuação acadêmica e homenageia a Dra. Krithi Karanth com um jantar beneficente em São Paulo, no dia 6 de outubro. Inscreva-se e participe dessa causa.
Por Equipe ILPS 5 de agosto de 2026
Em outubro de 2025, recebemos com tristeza a notícia da morte da extraordinária Jane Goodall, uma das maiores referências mundiais na defesa da natureza e dos animais.
Turtle with a domed brown shell and striped head resting on a log outdoors
Por Fábio Sartori 4 de agosto de 2026
Conheça um dos resultados dos estudos e trabalhos premiado pelo ILPS
Por Fábio Sartori 3 de agosto de 2026
De 20 a 22 de outubro, fui conhecer de perto o projeto “Manejo participativo de quelônios”, da bióloga Kathellen Magalhães, mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal do Acre. O projeto foi contemplado no Programa Jovens Talentos para a Conservação em 2024, concorrendo com 64 candidatos de todo o Brasil, e é totalmente patrocinado pela Karoon Energy.  Mas, valeu a pena estar lá naquele momento mágico da vida!
Por Equipe ILPS 31 de julho de 2026
No ILPS, acreditamos que a formação de um jovem profissional vai muito além do conhecimento técnico adquirido em sala de aula.
Leroy Ignacio segurando um pequeno pássaro colorido no dedo em uma área arborizada, usando bon
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Há mais de uma década, o Instituto Luísa Pinho Sartori mantém um compromisso especial com a BioSemana UFRJ . Desde 2010 pelas mãos da família de Luísa, e a partir de 2015 pelo próprio Instituto, patrocinamos a Palestra de Abertura do evento — um espaço que já recebeu nomes como Dr. Stuart Pimm, Dr. Carl Jones e Dra. Asha de Vos, referências mundiais na conservação ambiental. Neste ano, para celebrar essa trajetória e aprofundar o encontro entre nossa comunidade e um convidado tão especial, preparamos algo novo: o Jantar BioSemana UFRJ , uma noite pensada para reunir, em um ambiente intimista, quem acredita que proteger a biodiversidade também é proteger conhecimentos e histórias de vida. Um convidado que representa uma virada de olhar O nome escolhido pela Comissão Organizadora da BioSemana deste ano carrega um significado especial: Leroy Ignacio , indígena do povo macuxi, da região de Rupununi, na Guiana. Sem formação acadêmica em Biologia, Leroy foi peça-chave na conservação do tarim — o ameaçado pintassilgo-da-Venezuela —, unindo saber tradicional e ciência em um dos exemplos mais admirados de conservação comunitária das Américas. Seu trabalho já rendeu reconhecimento internacional, incluindo o Whitley Award , conhecido como o "Oscar da Conservação", e hoje ele preside a South Rupununi Conservation Society . A vinda de Leroy ao Brasil, com todas as despesas custeadas pelo ILPS, é também um símbolo do que defendemos: a valorização do conhecimento tradicional como parte essencial — e urgente — do debate sobre conservação ambiental. Uma noite para ouvir, trocar e se inspirar O Jantar BioSemana UFRJ acontece no dia 31 de agosto, às 19h, no Rubaiyat Rio (R. Jardim Botânico, 971), em um formato pensado para ir além da plateia: uma conversa próxima, em clima acolhedor, com quem viveu na prática o encontro entre tradição indígena e ciência da conservação. Temos a alegria de contar com o Rubaiyat Rio não apenas como sede, mas como parceiro genuíno dessa causa — um espaço que abraça a proposta do evento e se soma a nós na divulgação e na construção dessa noite tão especial. Uma parceria que reforça algo em que acreditamos: iniciativas de conservação crescem quando encontram aliados dispostos a emprestar seu espaço, sua rede e seu cuidado. Participe dessa noite Reservar um lugar no Jantar BioSemana UFRJ é garantir uma experiência rara: estar perto de uma história de conservação que atravessou fronteiras, línguas e saberes — e que agora chega até nós. Inscreva-se e reserve seu lugar: 👉 https://forms.gle/ZAMWiv7Uv4EZbfWJA As vagas são limitadas. Esperamos você lá. Confira alguns vídeos da edição passada
Fábio Sartori, vestindo uma camiseta preta com uma árvore branca estampada.
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Toda causa precisa de quem sonhe com ela e de quem a faça acontecer todos os dias.
Cristina Pinho, vestindo camiseta preta, em pé com os braços cruzados contra um fundo azul-petróleo.
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Por trás do Instituto Luísa Pinho Sartori está Cristina Pinho, engenheira, executiva e mãe, que escolheu honrar a memória da filha criando algo que inspira gerações.
Dois macacos e um tucano em uma exuberante cena no chão de uma floresta tropical.
Por Equipe ILPS 30 de junho de 2026
Entenda como as mudanças climáticas afetam a biodiversidade no Brasil, aumentam o risco de extinção de espécies e pressionam ecossistemas essenciais para o equilíbrio do país.