Queimadas e a estação seca 2026: por que este ano pode ser diferente
2026 já é considerado um ano recorde de incêndios florestais em escala global. Até o dia 6 de maio, a área queimada no planeta somava 163 milhões de hectares, segundo dados do Global Wildfire Information System (GWIS) reunidos pelo Portal Tela. O número é 50% acima da média histórica e 20% superior ao recorde anterior da série. Para o pesquisador Theodore Keeping, do Imperial College London, o cenário é prenúncio de um período "particularmente severo".
E o Brasil está entrando agora na fase mais crítica da sua própria estação seca, justamente quando um El Niño em intensificação eleva o risco de fogo em boa parte do território. Entender o que está por trás desse quadro é o primeiro passo para agir.
O que está acontecendo: o painel El Niño 2026-2027 e o efeito "chicote climático"
De acordo com o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Inmet, há 100% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027, com chance elevada de atingir intensidade "muito forte". O mesmo painel indica que o risco de fogo já aumenta em grande parte do interior do Brasil entre agosto e outubro, exatamente o período mais crítico da estação seca.
Esse comportamento está associado ao que parte da comunidade científica chama de "chicote climático": a alternância cada vez mais abrupta entre períodos de chuvas intensas e secas severas. O fenômeno amplia a variabilidade climática e dificulta o planejamento de resposta a desastres, tanto para o poder público quanto para quem trabalha na linha de frente da conservação.
O quadro no Brasil: estação seca mais longa e déficit hídrico
Estudos do INPE, divulgados pela Agência FAPESP, apontam que a estação seca na Amazônia vem se prolongando de 4 para até 6 meses, acompanhada de um aumento do déficit hídrico superior a 150 mm. Esse prolongamento altera diretamente a vulnerabilidade da vegetação ao fogo, mesmo em biomas historicamente mais úmidos, e amplia a janela de risco para estados que já enfrentam pressão de queimadas todos os anos.
O Cerrado brasileiro é um dos biomas mais expostos a esse cenário, ao lado da Amazônia e do Pantanal, três regiões que concentram grande parte da biodiversidade nacional e que dependem, em graus diferentes, do regime de chuvas para se manter em equilíbrio.
Impacto na biodiversidade: o que o fogo faz com a fauna e os biomas
O fogo descontrolado não distingue vegetação nativa de área já degradada, e seus efeitos sobre a fauna silvestre costumam ser imediatos e severos. Animais de pequeno porte, répteis, anfíbios e espécies com baixa capacidade de deslocamento são especialmente vulneráveis, assim como ninhos, filhotes e indivíduos em época de reprodução.
É importante lembrar que existe uma diferença entre queimada de manejo, controlada e planejada segundo critérios técnicos, e incêndio florestal descontrolado, que se propaga sem limites definidos e destrói indiscriminadamente vegetação, solo e vida animal. O desmatamento funciona como fator agravante nesse quadro: áreas desmatadas acumulam material combustível seco e ficam mais expostas ao vento e ao sol, o que facilita a propagação do fogo para fragmentos florestais vizinhos.
Preservar a cobertura vegetal nativa é, portanto, também uma estratégia de prevenção. As florestas funcionam como parte da infraestrutura natural que sustenta o Brasil, regulando o regime de chuvas e reduzindo a severidade da estação seca em escala regional.
O precedente do Pantanal 2024: o que a temporada de queimadas recorde ensina
Como já mostramos no artigo Pantanal em chamas: o que acontece com o bioma mais alagado do mundo, o Pantanal registrou em 2024 as maiores queimadas de sua história recente, em um bioma conhecido justamente pelas cheias, não pelo fogo em escala recorde. O episódio mostrou como a combinação de seca prolongada, baixa umidade e altas temperaturas pode transformar até os ecossistemas mais alagados do país em ambientes altamente inflamáveis.
Esse precedente é um alerta direto para 2026: com o El Niño em intensificação e a estação seca já se anunciando mais longa, as condições que levaram ao recorde de 2024 no Pantanal podem se repetir, e não apenas nesse bioma. Ele reforça por que o monitoramento e a proteção de Unidades de Conservação são estratégicos: são justamente essas áreas que concentram parte relevante da biodiversidade mais exposta ao risco de incêndio.
O que está sendo monitorado: Programa Queimadas e Boletim Infoqueima do INPE
O Programa Queimadas do INPE acompanha diariamente focos de calor e área queimada em todo o território nacional, com dados públicos usados por gestores, pesquisadores e organizações de conservação. O Boletim Infoqueima de junho de 2026 já apontava um mês crítico para o bioma monitorado, com expectativa de aumento das detecções nos meses seguintes, acompanhando o avanço da estação seca e a intensificação do El Niño.
Esse tipo de monitoramento é o que permite antecipar picos de risco, direcionar recursos de combate e prevenção, e embasar cientificamente a resposta a um cenário que, como mostram os dados do GWIS, do Inmet e do próprio INPE, tende a ser mais severo do que em anos anteriores.
Prevenção, ciência e chamada à ação
Os dados de 2026 não são motivo para catastrofismo, mas para atenção redobrada. O recorde global de área queimada, o painel El Niño 2026-2027, o prolongamento da estação seca amazônica e o precedente ainda recente do Pantanal em 2024 apontam na mesma direção: um ano em que prevenção e ciência precisam estar à frente da resposta ao fogo, não atrás dela.
Instituições como nós do Instituto Luísa Pinho Sartori atuam justamente nessa frente, apoiando ações de conservação e conectando ciência, monitoramento e proteção da biodiversidade brasileira. Conheça também as soluções para os efeitos das mudanças climáticas que já estão em curso no país.
Apoiar a conservação hoje é reduzir o impacto dos incêndios de amanhã. Faça parte dessa proteção.









