Copa do Mundo 2026: dá para conciliar megaeventos esportivos e sustentabilidade?

Equipe ILPS • 3 de junho de 2026

No dia 11 de junho começa a Copa do Mundo 2026. Bilhões de pessoas vão acompanhar o torneio, comentar cada jogo, vibrar com gols e acompanhar a disputa entre 48 seleções ao longo de 39 dias — a edição mais longa da história. Mas, junto com a festa global, cresce uma pergunta inevitável: qual é o custo ambiental de um evento desse tamanho?

Trazer esse debate para o centro não significa atacar o futebol. Significa levá-lo a sério. Se o esporte mobiliza paixões, recursos e atenção planetária, ele também precisa fazer parte das conversas mais urgentes do nosso tempo. É com esse olhar que o Instituto Luísa Pinho Sartori acompanha temas que conectam cultura, sociedade e responsabilidade ambiental.

O tamanho do problema: a pegada de carbono da Copa 2026

Pesquisas em andamento da Universidade de Lausanne, na Suíça, indicam que a Copa do Mundo 2026 pode gerar entre 5 e 9 milhões de toneladas de CO₂ . Se a estimativa se confirmar, esta poderá ser a maior pegada de carbono da história do esporte internacional.

O número ganha ainda mais força quando comparado a outros megaeventos. Os Jogos Olímpicos de Paris 2024, por exemplo, geraram aproximadamente 1,75 milhão de toneladas de CO₂ . Ainda que os formatos sejam diferentes, a comparação ajuda a visualizar a escala do desafio. A Copa de 2026 não será apenas mais uma edição ampliada: será um teste concreto para saber se grandes eventos esportivos conseguem ou não se adaptar à urgência climática.

Por que esta edição é especialmente crítica

Há pelo menos três fatores que tornam esta Copa particularmente sensível do ponto de vista ambiental. O primeiro é a escala: o torneio terá 48 seleções participantes, mais jogos e mais tempo de operação. O segundo é a geografia: a competição será sediada por três países — Estados Unidos, Canadá e México — o que aumenta significativamente as distâncias entre sedes e, com isso, o impacto das viagens aéreas.

O terceiro fator é o clima. Segundo relatório da Football for Future e da Common Goal, 14 dos 16 estádios da Copa 2026 já enfrentam condições climáticas desafiadoras. Isso inclui riscos associados a calor extremo em junho e julho, o que afeta não apenas o conforto do público, mas também a saúde de atletas, trabalhadores e equipes operacionais. Em outras palavras: a crise climática não é apenas consequência do evento. Ela também interfere diretamente em sua realização.

Ao mesmo tempo, há um aspecto positivo que precisa ser reconhecido. Diferentemente de outras edições, a Copa de 2026 utilizará predominantemente infraestrutura já existente, o que reduz parte importante das emissões ligadas à construção civil. Não resolve o problema central — especialmente o peso dos deslocamentos — mas evita repetir um dos padrões mais criticados em megaeventos recentes.

As viagens aéreas no centro da conta

Quando falamos em emissões de uma Copa espalhada por três países, é impossível ignorar a aviação. Seleções, comissões técnicas, equipes de apoio, patrocinadores, imprensa e torcedores precisarão percorrer longas distâncias ao longo de semanas. Em um torneio continentalizado, cada mudança de sede tende a ampliar a conta de carbono.

Esse é um dos pontos que mais desafiam a ideia de sustentabilidade em megaeventos esportivos. Mesmo com estádios existentes e medidas operacionais mais eficientes, o modelo logístico da competição segue intensivo em combustíveis fósseis. É aqui que o debate sobre greenwashing se torna relevante: ações pontuais de compensação ou campanhas de comunicação não bastam se a estrutura do evento continuar empurrando emissões para cima.

Por isso, discutir soluções baseadas em regeneração, proteção de ecossistemas e redução real de impacto é essencial. Iniciativas inspiradas em Soluções Baseadas na Natureza ajudam a ampliar essa conversa para além da compensação simplista e colocam o foco em respostas mais integradas.

O histórico da FIFA: promessas, neutralidade climática e críticas

A discussão sobre sustentabilidade no futebol também passa pelo histórico institucional da FIFA. Em 2023, a entidade foi criticada pela Comissão Suíça para a Lealdade após afirmar que a Copa do Catar 2022 teria sido “climaticamente neutra” sem apresentar provas suficientes para sustentar essa alegação. O caso se tornou um marco importante no debate sobre comunicação ambiental responsável.

A crítica não invalida todo esforço feito em sustentabilidade, mas mostra que promessas climáticas precisam ser acompanhadas de metodologia clara, transparência e verificação independente. Quando isso não acontece, o risco é transformar o compromisso ambiental em discurso reputacional — algo especialmente delicado em eventos com impacto tão alto e visível.

Esse também é um aprendizado importante para a formação de novas gerações mais críticas e preparadas para lidar com desafios complexos. Projetos como Jovens Talentos mostram como educação, juventude e engajamento podem fortalecer uma cultura ambiental mais consistente e menos vulnerável a soluções superficiais.

O que está sendo feito para 2026

A FIFA e os comitês ligados à organização da Copa 2026 vêm destacando algumas medidas para reduzir impactos. Entre elas estão o uso de infraestrutura já existente, iniciativas de energia renovável, programas de gestão de resíduos, estratégias de reuso de água e ações voltadas à eficiência operacional dos estádios e das operações associadas.

Essas medidas são relevantes e devem ser valorizadas. Reaproveitar arenas, melhorar a gestão de recursos e evitar novas obras desnecessárias são passos importantes. Mas a pergunta central permanece: essas ações serão suficientes diante da escala do torneio e do peso das emissões logísticas? A resposta mais honesta, por enquanto, parece ser que elas ajudam — mas não eliminam o problema.

Grandes eventos podem ser diferentes?

O exemplo das Olimpíadas de Paris 2024 mostra que há caminhos mais ambiciosos para reduzir impactos. Com uma pegada estimada em cerca de 1,75 milhão de toneladas de CO₂, os Jogos buscaram limitar emissões por meio do uso intensivo de estruturas existentes e temporárias, além de metas mais claras de redução. Não foi um evento sem impacto, mas funcionou como contraponto importante ao mostrar que escala e planejamento fazem diferença.

Isso abre uma discussão legítima: megaeventos precisam ser repensados também em tamanho e formato? Em tempos de emergência climática, talvez sustentabilidade não possa significar apenas “operar melhor”, mas também revisar a lógica de expansão constante. O esporte de alto nível pode continuar mobilizando o mundo, mas talvez precise fazer isso com menos excesso e mais responsabilidade.

O que cada torcedor pode fazer

Nenhuma mudança estrutural depende só do público, mas o comportamento individual também conta. Para quem vai acompanhar a Copa de perto ou à distância, algumas escolhas ajudam a reduzir impacto real: priorizar transporte coletivo quando possível, evitar deslocamentos desnecessários, reduzir descartáveis em encontros e confraternizações, consumir de forma mais consciente e valorizar marcas, clubes e iniciativas que tratem sustentabilidade com seriedade.

Esse tipo de atenção vale não apenas durante a Copa, mas no cotidiano. O conteúdo Sustentabilidade no Cotidiano oferece reflexões práticas que ajudam a transformar preocupação ambiental em decisões concretas, inclusive em momentos de lazer e consumo.

Banner verde em português sobre conservação, com botão “Contribua com o IPS”.

Torcer também é escolher o futuro

A Copa do Mundo 2026 pode entrar para a história por muitos motivos. Pode ser lembrada como a maior, a mais longa, a mais assistida — e talvez também como a mais poluente. Mas ela também pode servir como ponto de virada em uma conversa que o esporte já não pode adiar.

O futebol move afetos, identidades e milhões de pessoas. Justamente por isso, ele tem potência para influenciar comportamentos, pressionar instituições e abrir espaço para um novo padrão de responsabilidade ambiental. Quem ama o esporte não precisa abandoná-lo para fazer perguntas difíceis. Pelo contrário: pode começar por elas.

E talvez essa seja a reflexão mais importante. Em um mundo que precisa de menos emissões e mais reconexão com aquilo que sustenta a vida, torcer também pode significar imaginar outras formas de celebrar, consumir e participar. Para seguir ampliando esse olhar sobre natureza, clima e pertencimento, vale conhecer as experiências do Caminhos da Conservação , que aproximam pessoas de vivências transformadoras em contato com o meio ambiente.

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