Desertificação no Brasil: por que o dia 17 de junho precisa entrar no nosso radar

Equipe ILPS • 4 de junho de 2026

No dia 17 de junho, o mundo marca o Dia Mundial do Combate à Desertificação e à Seca. À primeira vista, o tema pode parecer distante, associado a paisagens áridas de outros continentes. Mas a realidade é outra: a desertificação avança dentro do Brasil, afeta milhões de pessoas e se torna ainda mais preocupante em um contexto de aquecimento global.

O país abriga um dos maiores semiáridos do mundo, e os sinais de pressão sobre o território vêm se intensificando. Mais do que uma pauta regional, trata-se de um desafio ambiental, social e climático de escala nacional. Entender esse processo é essencial para compreender o que está em jogo para a segurança hídrica, a produção de alimentos, a conservação da biodiversidade e a qualidade de vida de populações inteiras.

O que é desertificação?

Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), desertificação é a degradação da terra em áreas áridas, semiáridas e subúmidas secas, causada por diversos fatores, incluindo variações climáticas e atividades humanas. Ou seja: não se trata simplesmente da falta de chuva.

É importante distinguir seca de desertificação. A seca é um fenômeno climático, geralmente temporário, ligado à escassez de precipitação. Já a desertificação é um processo mais profundo e persistente de degradação do solo e da vegetação, com perda de fertilidade, redução da capacidade produtiva da terra e enfraquecimento dos ecossistemas. Quando esse processo se instala, os efeitos podem permanecer por muitos anos e se tornar muito mais difíceis de reverter.

Esse quadro costuma ser agravado por uso inadequado do solo, retirada excessiva da cobertura vegetal, queimadas, sobrepastoreio e desmatamento. Quando a vegetação nativa perde espaço, o solo fica mais exposto, a retenção de água diminui e o equilíbrio ecológico se rompe. Esse tipo de pressão ajuda a explicar por que o debate sobre desertificação também conversa com outros biomas ameaçados, como mostra o artigo Cerrado brasileiro: biodiversidade em risco.

O quadro no Brasil: onde a desertificação avança

De acordo com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA), as Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) no Brasil abrangem 1.513.987 km², o equivalente a cerca de 18% do território nacional , e incluem 1.649 municípios. Nessas áreas e em seu entorno vivem aproximadamente 39 milhões de pessoas , segundo o Boletim Desertificação produzido por INSA, OCA, UFCG, Sudene e MIDR.

O problema se concentra principalmente no Nordeste e no norte de Minas Gerais, com forte presença na Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e particularmente vulnerável à degradação do solo e à irregularidade das chuvas. Mas o fenômeno não pode mais ser lido apenas como uma questão nordestina. Entre 2000 e 2020, o território suscetível à desertificação expandiu 170 mil km² , segundo o mesmo boletim, sinalizando uma intensificação consistente do risco.

Estudo do Cemaden publicado em 2023 aponta ainda que as áreas classificadas como semiáridas cresceram, em média, 75 mil km² por década. Isso indica uma mudança territorial relevante, impulsionada tanto por alterações climáticas quanto pelo modo como ocupamos e degradamos a paisagem.

Mudanças climáticas: o acelerador do problema

As mudanças climáticas funcionam como um multiplicador de pressões já existentes. O aumento da temperatura intensifica a evaporação, reduz a umidade do solo, altera os regimes de chuva e prolonga períodos secos. Em áreas já vulneráveis, isso acelera o caminho para a degradação.

Projeções climáticas baseadas no cenário SSP 4.5 do CMIP-6 indicam aumento de áreas com clima árido e suscetibilidade muito alta à desertificação no Nordeste até 2040. Em outras palavras, o que hoje já é grave pode se tornar ainda mais amplo e intenso nas próximas décadas.

Esse processo não depende apenas da chuva que falta, mas também da vegetação que desaparece. Florestas e formações nativas ajudam a regular o clima local, o ciclo da água e a fertilidade do solo. Quando são degradadas, o território perde resiliência. É por isso que proteger a infraestrutura natural que sustenta o Brasil é parte central de qualquer estratégia séria de enfrentamento da desertificação.

O cenário recente de secas no país

Os últimos anos ajudam a mostrar como a crise climática tem ampliado extremos em diferentes regiões do país. Em novembro de 2025, oito estados brasileiros registraram seca em 100% de seus territórios: Ceará, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins, segundo dados divulgados pela Agência Brasil com base em monitoramentos e referências do Copernicus em 2026.

O verão de 2024/2025 também foi o sexto mais quente no Brasil desde 1961 . Esses dados não significam que todo episódio de seca leve automaticamente à desertificação, mas mostram o ambiente favorável para que processos de degradação se agravem e se espalhem.

Os impactos humanos são profundos. A desertificação compromete a segurança alimentar, pressiona os recursos hídricos, reduz renda, aprofunda desigualdades sociais e pode estimular deslocamentos forçados. Quando a terra perde produtividade e a água se torna mais escassa, a vida cotidiana fica mais instável — especialmente para populações que já vivem em contextos de maior vulnerabilidade.

O alerta é global. Em 2024, Ibrahim Thiaw, secretário-executivo da UNCCD, lembrou que o mundo perde, a cada segundo, o equivalente a quatro campos de futebol de terra saudável . O dado ajuda a dimensionar que a desertificação não é apenas um problema ecológico: ela representa perda de futuro.

O que o Brasil está fazendo

Apesar da gravidade do cenário, há respostas em construção. Em dezembro de 2025, o Ministério do Meio Ambiente lançou o Plano de Ação para o Bioma (PAB), com foco em estratégias de conservação, recuperação e adaptação. Outra frente importante é o programa REDESER, voltado ao enfrentamento da desertificação com articulação entre pesquisa, monitoramento, políticas públicas e ações territoriais.

Essas iniciativas são importantes porque o combate à desertificação exige abordagem integrada: recuperação de áreas degradadas, fortalecimento da agricultura adaptada ao semiárido, proteção da vegetação nativa, gestão eficiente da água, apoio às comunidades locais e monitoramento contínuo do avanço do problema. Nesse contexto, abordagens inspiradas em Soluções Baseadas na Natureza ganham força por combinar restauração ecológica, adaptação climática e benefícios sociais.

Também é essencial investir em formação, ciência e engajamento das novas gerações. Iniciativas de educação ambiental e fortalecimento de lideranças jovens, como apoio aos jovens conservacionistas , ajudam a construir respostas mais duradouras e conectadas com os territórios.

Olhar para o semiárido é olhar para o futuro do país

O Dia Mundial do Combate à Desertificação e à Seca é um convite a reconhecer uma realidade que já está entre nós. A desertificação não é um processo abstrato, nem restrito a um pedaço isolado do mapa. Ela afeta o Brasil real, atravessa o Nordeste, alcança outras regiões e se intensifica à medida que o clima muda e os ecossistemas perdem proteção.

A boa notícia é que ainda há caminho para agir. Proteger a vegetação nativa, restaurar áreas degradadas, apoiar políticas públicas consistentes, valorizar a ciência e rever práticas de uso da terra são passos concretos. No dia a dia, escolhas mais conscientes também fazem parte dessa transformação — e conteúdos como Sustentabilidade no Cotidiano podem ajudar a aproximar essa reflexão da vida prática.

No fim das contas, combater a desertificação é mais do que preservar paisagens: é proteger água, alimento, dignidade e futuro. E isso diz respeito a todos nós.

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