O que ficou prometido na COP30: compromissos, cobranças e o papel da sociedade civil

Equipe ILPS • 22 de maio de 2026

Belém virou o centro do mundo climático por alguns dias. E não foi por acaso. Discutir a COP na Amazônia muda o peso das frases, porque a distância entre “texto aprovado” e “realidade em campo” aparece sem filtro: cheias e secas mais extremas, pressão sobre territórios, disputa por orçamento, risco para quem protege floresta com pouca estrutura e muita responsabilidade.

Para nós do Instituto Luísa Pinho Sartori, a COP30 teve um valor duplo. Trouxe decisões que podem destravar ação. E, ao mesmo tempo, deixou lacunas grandes demais para passar como detalhe técnico. O ponto agora é direto: transformar os acordos COP30 Belém em implementação verificável, com cobrança pública e ação concreta.

Pacote de Belém e resultados da COP30: o que foi decidido

O chamado Pacote de Belém reúne as decisões aprovadas por consenso na COP30. Foram 29 documentos endossados por 195 países, organizados em torno de mecanismos pensados para empurrar a agenda do “acordo” para a “execução”. Os cinco eixos mais citados foram:


  • Decisão Mutirão, com a mensagem política de elevar ambição e acelerar implementação
  • Acelerador Global de Implementação, uma iniciativa voluntária de apoio à execução de NDCs e planos nacionais de adaptação
  • Missão Belém Para 1,5°C, uma plataforma multilateral de cooperação em mitigação, adaptação e investimento climático
  • Plano De Ação De Gênero, que amplia financiamento sensível ao gênero e fortalece a liderança de mulheres indígenas, afrodescendentes e rurais
  • Mecanismo De Transição Justa, que coloca pessoas e equidade no centro da agenda climática

O Pacote também consolidou alguns compromissos que, se virarem regra, orçamento e transparência, podem mudar o jogo em várias frentes.

Financiamento para adaptação


A meta registrada foi triplicar recursos destinados a países em desenvolvimento até 2035, chegando a pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano. Para quem vive eventos extremos, adaptação não é uma linha “social” do debate climático. É infraestrutura, saúde, água, proteção de territórios e ciência aplicada. O gargalo é conhecido: quem paga, como paga, com quais critérios e que tipo de fiscalização acompanha.

NDCs


A COP30 destacou que 122 países apresentaram contribuições novas ou atualizadas. Esse volume é sinal político, mas não é sinônimo de alinhamento. NDC sem ambição real e sem mecanismo de execução vira documento elegante que não altera a curva de emissões. Esse é um ponto central quando se pergunta “COP30 o que mudou” de verdade.

TFFF (Fundo Florestas Tropicais Para Sempre)


O TFFF propõe pagamento a países que preservam florestas tropicais por meio de um fundo de investimento global. Segundo a síntese divulgada, 63 países endossaram a iniciativa e US$ 6,7 bilhões já foram mobilizados. Para a Amazônia, o instrumento é politicamente forte: coloca a floresta como ativo global que precisa de remuneração estável, não de projeto piloto eterno. Ao mesmo tempo, o desenho importa: critérios, salvaguardas, integridade ambiental e respeito a povos e comunidades tradicionais.

Roteiro de adaptação de Baku (2026–2028)

O período 2026–2028 ganhou uma estrutura de acompanhamento que, em tese, ajuda a tirar adaptação do improviso. O teste será conectar esse roteiro ao nível onde adaptação custa caro e precisa de coordenação: estados, municípios e territórios.

Transição justa

Criar um mecanismo internacional formaliza algo que já deveria estar no centro: política climática envolve trabalho, energia acessível, proteção social e participação real de quem será afetado por mudanças produtivas.

O que ficou em aberto: lacunas e cobranças

Uma parte relevante dos resultados COP30 está nas ausências. O que não entrou no texto final indica onde a política ainda travou.

Combustíveis fósseis

O documento final não menciona combustíveis fósseis em nenhum momento, nem para reafirmar o compromisso de transitar para longe deles, já acordado dois anos antes. Se a meta é 1,5°C, não existe caminho plausível sem reduzir produção e consumo de carvão, petróleo e gás. O silêncio aqui não é detalhe semântico; é sinal de disputa e adiamento.

Desmatamento

Não houve um roteiro formal para o fim do desmatamento, apesar de mais de 90 países apoiarem a ideia. Para a Amazônia, essa é a lacuna mais crítica e politicamente relevante. Sem desmatamento zero, qualquer conversa sobre estabilidade climática fica incompleta.

NDCs e a distância para 1,5°C

Mesmo com novas submissões, análises de especialistas apontaram que as NDCs seguem sem alinhamento real com a trajetória de 1,5°C. Há reconhecimento do desafio, mas faltou o salto político compatível com a ciência.

Os dois “Mapas do Caminho”

Como alternativa, a presidência brasileira abriu consulta para construir dois documentos com entrega prevista até outubro de 2026: um para o fim dos combustíveis fósseis e outro para desmatamento zero, antes da passagem de bastão para a Turquia. Eles podem virar instrumentos úteis de pressão e monitoramento, ou virar mais um conjunto de boas intenções. A diferença estará em metas, prazos, responsáveis e métricas públicas.

Sociedade civil e jovens conservacionistas: quem cobra, quem monitora, quem age

A COP não se resolve na COP. O pós-COP é onde as decisões viram (ou não viram) orçamento, regulação, fiscalização e transparência. E é também onde a sociedade civil entra com tarefas que ninguém faz no lugar dela.

Cobrança com base em evidência


Cobrar não é repetir palavras de ordem. É comparar promessa com execução, acompanhar orçamento, pedir prestação de contas, exigir dados e explicar o que esses dados significam. Se o Pacote de Belém fala em adaptação, florestas e transição justa, dá para transformar isso em perguntas públicas e verificáveis.

Monitoramento em rede

 Indicadores, relatórios, auditoria social e comunicação clara não nascem sozinhos. Nessa frente, jovens pesquisadores têm um papel especial porque conseguem ligar ciência aplicada, território e linguagem acessível sem perder rigor.

 Ação concreta no território

É aqui que o ILPS aposta sem ingenuidade: a mudança começa nas pessoas, mas precisa virar projeto, pesquisa, método, parceria local e resultado mensurável.

Esse é o fio que conecta acordos globais ao dia a dia de quem trabalha com conservação. Por isso, o Instituto apoia jovens conservacionistas por meio de três programas:

  •  Prêmio Luísa: premia anualmente estudantes de graduação em Ciências Biológicas de todo o Brasil cujas pesquisas contribuem para a conservação da biodiversidade. Na edição 2025, um dos trabalhos finalistas investigou os impactos de herbicidas sobre abelhas nativas sem ferrão.
  • Beca Luísa: custeia integralmente a participação de um doutorando brasileiro na Oficina de Genética da Conservação da Rede Latino-Americana ReGeNec, com passagens, inscrição, hospedagem e alimentação.
  • Jovens Talentos Para A Conservação: desde 2017, financia mestrandos em Ecologia com R$ 25 mil por projeto de conservação aplicada. Em 2025, a selecionada foi Aléxia Rodrigues (UFPA), com um projeto que une inteligência artificial e conhecimento ancestral para monitorar mariposas polinizadoras na Amazônia.

O que vem a seguir: Brasil na presidência até 2026 e COP31

O Brasil permanece na presidência da COP até novembro de 2026. Isso dá margem para cobrar coerência entre o que foi anunciado em Belém e o que será negociado e executado no período: desenho do financiamento de adaptação, implementação do TFFF com salvaguardas e, sobretudo, avanço real nos mapas do caminho para combustíveis fósseis e desmatamento.

A COP31 será em Antalya, na Turquia. Até lá, a pergunta útil não é se o discurso foi bom. É se as promessas viraram trilho: metas com prazo, transparência de dados e mecanismos que sobrevivam a ciclos políticos.

Como você pode se envolver sem esperar o próximo evento

Se você acompanha a agenda climática como cidadão, doador, jornalista ou pesquisador, há maneiras simples e consistentes de participar do pós-COP. Comece com o básico bem feito: acompanhe metas, cobre orçamento, procure dados, apoie quem monitora e peça transparência de quem decide.

E, se fizer sentido para você, conheça os programas do ILPS e considere apoiar o Instituto. Investir em jovens conservacionistas e em ciência aplicada é uma forma prática de encurtar a distância entre promessas globais e ação no território.

Banner verde-azulado com texto sobre conservação e botão “Contribua com o IPS”
Flooded residential street with muddy water, houses on both sides, and overcast skies.
Por Fábio Sartori • 2 de outubro de 2026
Enquanto ações globais contra as mudanças climáticas não ganham escala, pequenas cidades precisam agir. Veja como a análise de risco municipal pode preparar a infraestrutura local.
Onça-pintada na vegetação, vista de perfil com a cabeça baixa
Por Equipe ILPS • 2 de outubro de 2026
Atropelamentos, onças e pecuária, macacos e capivaras nas cidades: veja como a ciência aponta caminhos para a convivência entre pessoas e fauna silvestre.
Golden lion tamarin perched on a mossy branch in a lush green forest
Por Equipe ILPS • 1 de outubro de 2026
Pela primeira vez, micos-leões-da-cara-preta foram vacinados contra a febre amarela no Paraná. Entenda a iniciativa que protege uma das espécies mais raras do mundo.
Dry grassland fire with flames and smoke spreading across a savanna at dusk
Por Cristina Pinho • 1 de outubro de 2026
Ondas de calor, incêndios e enchentes já são realidade no Brasil e no mundo. Entenda por que a percepção de risco climático ainda não acompanha a urgência dos fatos.
Por Equipe ILPS • 14 de setembro de 2026
Enquanto cidades se mobilizam contra o calor extremo com a iniciativa Beat the Heat, o oceano brasileiro já sente o impacto.
Smoke rising from a brush fire in a dry, open landscape under a clear sky
Por Equipe ILPS • 12 de setembro de 2026
2026 já é um ano recorde de incêndios florestais no mundo, e o Brasil entra na fase mais crítica da estação seca com um El Niño em intensificação. Entenda os dados!
Árvores jovens crescendo em uma encosta ensolarada sob um céu claro, com uma floresta ao fundo.
Por Cristina Pinho • 11 de setembro de 2026
Uma reflexão sobre a restauração do Instituto Terra em Aimorés, MG, e por que proteger a natureza é hoje parte central da resposta às mudanças climáticas.
Audience watches a presentation in a restaurant, with a speaker beside a large screen showing a seaside scene.
Por Equipe ILPS • 5 de agosto de 2026
ILPS expande atuação acadêmica e homenageia a Dra. Krithi Karanth com um jantar beneficente em São Paulo, no dia 6 de outubro. Inscreva-se e participe dessa causa.
Por Equipe ILPS • 5 de agosto de 2026
Em outubro de 2025, recebemos com tristeza a notícia da morte da extraordinária Jane Goodall, uma das maiores referências mundiais na defesa da natureza e dos animais.
Turtle with a domed brown shell and striped head resting on a log outdoors
Por Fábio Sartori • 4 de agosto de 2026
Conheça um dos resultados dos estudos e trabalhos premiado pelo ILPS