Cerrado brasileiro: biodiversidade em risco e caminhos para uma agricultura regenerativa

Cristina Pinho • 16 de setembro de 2025

O Cerrado brasileiro é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como o “berço das águas” do Brasil. Sua importância é estratégica: o bioma abriga milhares de espécies endêmicas e é responsável por alimentar as principais bacias hidrográficas do país.

Apesar desse papel fundamental, o Cerrado enfrenta uma perda acelerada de vegetação nativa. Desde 1985, já foram desmatados mais de 38 milhões de hectares, e atualmente a região concentra 61% de todo o desmatamento nacional. Esse processo compromete a biodiversidade, a disponibilidade de água e a estabilidade climática.


Ao mesmo tempo, existem alternativas viáveis. O agronegócio brasileiro pode assumir um papel central na transição para modelos sustentáveis, por meio da recuperação de pastagens degradadas e da adoção de práticas agrícolas regenerativas. Essas soluções permitem aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas, conciliando produção e conservação.


O que torna o Cerrado único

O Cerrado ocupa 24% do território nacional e é considerado a savana mais rica em biodiversidade do planeta.


  • Mais de 12 mil espécies de plantas catalogadas, sendo 4.800 endêmicas.
  • Lar de espécies emblemáticas como o lobo-guará, tamanduá-bandeira, tatu-canastra e os ipês coloridos.
  • Reconhecido como o “berço das águas”, pois abastece bacias hidrográficas como São Francisco, Paraná e Tocantins-Araguaia.


Além da biodiversidade, o bioma presta serviços ecossistêmicos vitais: recarga de aquíferos, polinização, regulação climática e manutenção de solos férteis.


Desmatamento no Cerrado: números alarmantes

A conversão de áreas nativas do Cerrado em pastagens e lavouras é um processo histórico, marcado por décadas de expansão agropecuária. 


Os dados mais recentes reforçam a gravidade da situação. Somente em 2023, o Cerrado foi responsável por 61% de todo o desmatamento registrado no Brasil. Em um único ano, 1,1 milhão de hectares foram derrubados.


Essas perdas têm consequências diretas: fragmentam habitats, comprometem a disponibilidade de recursos hídricos e colocam em risco a sobrevivência de espécies endêmicas e de comunidades tradicionais que dependem do bioma para sua subsistência.


Impactos socioambientais

A destruição da vegetação nativa do Cerrado gera efeitos amplos e de longo prazo. Os principais impactos podem ser observados em diferentes dimensões:


  • Água: redução no volume de nascentes e rios, comprometendo o abastecimento humano, a irrigação agrícola e a geração de energia.
  • Clima: perda da capacidade de sequestro de carbono e alteração no regime de chuvas, com reflexos diretos na produção agrícola.
  • Biodiversidade: ameaça a espécies endêmicas e de elevado valor ecológico, muitas em risco de extinção.
  • Comunidades tradicionais: perda de território, de alimentos e de recursos medicinais essenciais para sua subsistência.


Preservar o Cerrado é garantir a infraestrutura natural que sustenta a vida e a economia brasileira.


Agricultura e Cerrado: de ameaça a oportunidade

O agronegócio brasileiro é um dos principais motores da economia nacional e encontrou no Cerrado, especialmente na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), uma de suas principais fronteiras agrícolas nas últimas décadas.


Ao mesmo tempo, o setor passou por um processo de evolução tecnológica, incorporando práticas que permitem maior produtividade com menor impacto ambiental, como:


  • Plantio direto: técnica que reduz a erosão e melhora a qualidade do solo.
  • Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF): sistema que diversifica a produção e auxilia na recuperação de áreas degradadas.
  • Uso eficiente de insumos e melhoramento genético: estratégias que ampliam a produtividade sem necessidade de expandir novas áreas.

Esses avanços demonstram que é possível conciliar produção agrícola e conservação ambiental, reduzindo a pressão sobre a vegetação nativa do Cerrado.

O potencial das pastagens degradadas

O Brasil possui cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas.


Ao recuperá-las, é possível dobrar ou triplicar a produtividade sem expandir a fronteira agrícola.

A recuperação fortalece a retenção de água, aumenta o estoque de carbono no solo e melhora a resiliência climática.

Programas como o Plano ABC  (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) e iniciativas privadas como o Reverte já apresentam resultados positivos.


O desafio é escalar soluções, combinando crédito rural, assistência técnica e demanda por mercados sustentáveis.


Limites e desafios da intensificação sustentável


A intensificação da produção agrícola representa uma oportunidade, mas não é uma solução automática. Quando mal conduzida, pode gerar efeitos negativos, como:


Uso excessivo de agrotóxicos, com impactos ambientais e à saúde.

Pressão indireta sobre novas áreas, conhecida como efeito de deslocamento.

Conflitos sociais e fundiários, especialmente em regiões de expansão agrícola.


Para evitar esses riscos, é fundamental que a intensificação sustentável seja acompanhada de medidas complementares, tais como:


Compromisso efetivo com o desmatamento zero.

Fiscalização e monitoramento por satélite para garantir transparência.

Pagamentos por serviços ambientais, valorizando quem conserva

Proteção às comunidades tradicionais e às áreas prioritárias para a biodiversidade e recursos hídricos.


Caminhos que já mostram resultados

Diversas iniciativas já demonstram que é possível conciliar produção agrícola com conservação ambiental no Cerrado. Entre as principais práticas em andamento, destacam-se:


Recuperação de pastagens degradadas, apoiada por linhas de crédito específicas para estimular a restauração produtiva dos solos.

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e outros sistemas integrados, que aumentam a produtividade ao mesmo tempo em que favorecem a conservação ambiental.

Compromissos assumidos pelas cadeias de soja e carne, que vêm sendo pressionadas por mercados nacionais e internacionais a garantir cadeias livres de desmatamento.

Tecnologias de monitoramento remoto, que ampliam a transparência e possibilitam maior responsabilização dos agentes envolvidos.

Valorização de produtos sustentáveis, com certificações e diferenciação de mercado que reconhecem práticas de baixo impacto ambiental.


Esses exemplos reforçam que existem soluções viáveis e já em prática. O desafio está em ampliar sua escala, garantindo que beneficiem não apenas o setor produtivo, mas também a sociedade e o meio ambiente.


Preservar para prosperar

O Cerrado encontra-se em um momento decisivo. O avanço do desmatamento compromete a biodiversidade, a disponibilidade de água e a estabilidade climática, mas também coloca em risco a segurança alimentar e a própria sustentabilidade da produção agrícola brasileira.


Ao mesmo tempo, o país dispõe de condições técnicas e econômicas para liderar uma transição para uma agricultura regenerativa. A recuperação de áreas degradadas, a adoção de tecnologias inovadoras e o fortalecimento de compromissos ambientais são caminhos concretos para conciliar produção e conservação.


Para o Instituto Luísa Pinho Sartori, preservar o Cerrado não é apenas uma responsabilidade ambiental: é um compromisso com o futuro. Nossa atuação busca apoiar a ciência, promover iniciativas sustentáveis e estimular o engajamento de diferentes setores da sociedade na proteção desse bioma estratégico.

Proteger o Cerrado é garantir a água que abastece milhões de pessoas, os alimentos que chegam à mesa e as condições de desenvolvimento para as próximas gerações. E o ILPS continuará somando esforços para que essa preservação seja, de fato, um caminho de prosperidade para o Brasil.



Por Equipe ILPS 31 de julho de 2026
No ILPS, acreditamos que a formação de um jovem profissional vai muito além do conhecimento técnico adquirido em sala de aula.
Leroy Ignacio segurando um pequeno pássaro colorido no dedo em uma área arborizada, usando bon
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Há mais de uma década, o Instituto Luísa Pinho Sartori mantém um compromisso especial com a BioSemana UFRJ . Desde 2010 pelas mãos da família de Luísa, e a partir de 2015 pelo próprio Instituto, patrocinamos a Palestra de Abertura do evento — um espaço que já recebeu nomes como Dr. Stuart Pimm, Dr. Carl Jones e Dra. Asha de Vos, referências mundiais na conservação ambiental. Neste ano, para celebrar essa trajetória e aprofundar o encontro entre nossa comunidade e um convidado tão especial, preparamos algo novo: o Jantar BioSemana UFRJ , uma noite pensada para reunir, em um ambiente intimista, quem acredita que proteger a biodiversidade também é proteger conhecimentos e histórias de vida. Um convidado que representa uma virada de olhar O nome escolhido pela Comissão Organizadora da BioSemana deste ano carrega um significado especial: Leroy Ignacio , indígena do povo macuxi, da região de Rupununi, na Guiana. Sem formação acadêmica em Biologia, Leroy foi peça-chave na conservação do tarim — o ameaçado pintassilgo-da-Venezuela —, unindo saber tradicional e ciência em um dos exemplos mais admirados de conservação comunitária das Américas. Seu trabalho já rendeu reconhecimento internacional, incluindo o Whitley Award , conhecido como o "Oscar da Conservação", e hoje ele preside a South Rupununi Conservation Society . A vinda de Leroy ao Brasil, com todas as despesas custeadas pelo ILPS, é também um símbolo do que defendemos: a valorização do conhecimento tradicional como parte essencial — e urgente — do debate sobre conservação ambiental. Uma noite para ouvir, trocar e se inspirar O Jantar BioSemana UFRJ acontece no dia 31 de agosto, às 19h, no Rubaiyat Rio (R. Jardim Botânico, 971), em um formato pensado para ir além da plateia: uma conversa próxima, em clima acolhedor, com quem viveu na prática o encontro entre tradição indígena e ciência da conservação. Temos a alegria de contar com o Rubaiyat Rio não apenas como sede, mas como parceiro genuíno dessa causa — um espaço que abraça a proposta do evento e se soma a nós na divulgação e na construção dessa noite tão especial. Uma parceria que reforça algo em que acreditamos: iniciativas de conservação crescem quando encontram aliados dispostos a emprestar seu espaço, sua rede e seu cuidado. Participe dessa noite Reservar um lugar no Jantar BioSemana UFRJ é garantir uma experiência rara: estar perto de uma história de conservação que atravessou fronteiras, línguas e saberes — e que agora chega até nós. Inscreva-se e reserve seu lugar: 👉 https://forms.gle/ZAMWiv7Uv4EZbfWJA As vagas são limitadas. Esperamos você lá. Confira alguns vídeos da edição passada
Fábio Sartori, vestindo uma camiseta preta com uma árvore branca estampada.
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Toda causa precisa de quem sonhe com ela e de quem a faça acontecer todos os dias.
Cristina Pinho, vestindo camiseta preta, em pé com os braços cruzados contra um fundo azul-petróleo.
Por Equipe ILPS 29 de julho de 2026
Por trás do Instituto Luísa Pinho Sartori está Cristina Pinho, engenheira, executiva e mãe, que escolheu honrar a memória da filha criando algo que inspira gerações.
Dois macacos e um tucano em uma exuberante cena no chão de uma floresta tropical.
Por Equipe ILPS 30 de junho de 2026
Entenda como as mudanças climáticas afetam a biodiversidade no Brasil, aumentam o risco de extinção de espécies e pressionam ecossistemas essenciais para o equilíbrio do país.
Trilha ensolarada na floresta, ladeada por samambaias verdejantes e árvores altas.
Por Equipe ILPS 29 de junho de 2026
Entenda o que são unidades de conservação no Brasil, como elas funcionam, o que é APA e por que essas áreas são essenciais para proteger a biodiversidade.
Um rio lamacento serpenteando por uma densa floresta tropical verde sob um céu nublado.
Por Equipe ILPS 24 de junho de 2026
Entenda os impactos ambientais do garimpo ilegal no Brasil, os efeitos sobre a biodiversidade e a crise na Terra Yanomami sob uma perspectiva científica.
Paisagem desértica com cactos, arbustos secos e uma árvore sem folhas ao pôr do sol.
Por Equipe ILPS 22 de junho de 2026
Entenda o que é a Caatinga, sua flora e fauna, por que o bioma é tão ignorado e por que a conservação da Caatinga é essencial para o Brasil.
Copa das árvores de uma floresta tropical enevoada ao nascer do sol sob um céu nublado.
Por Equipe ILPS 18 de junho de 2026
Entenda o que são os rios voadores da Amazônia, como eles influenciam a chuva no Brasil e por que a conservação da floresta é essencial para o clima.
Por Equipe ILPS 16 de junho de 2026
Entenda o que é o TFFF, como funciona o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e por que ele pode transformar o financiamento da conservação florestal no Brasil.